Por António Manuel Correia Sequeira*

Antes de começar a tentar escrever sobre a Romaria tenho de vos confessar que tenho imensas dificuldades em descrever aquilo que para mim apenas se pode sentir e não explicar. Na minha consciência, falar sobre a Romaria é tentar descrever uma experiência sagrada. A Romaria é algo que nos aproxima de Deus e da sua força suprema. Esta semana de oração é um caminho que nos ajuda a encontrar a Deus no rosto de cada irmão com quem nos cruzamos no caminho.

Este encontro com Deus é simplesmente indizível, inexprimível, uma experiência sobre a qual não se consegue dizer ou falar. Há algo que, simplesmente, nos impele a caminhar, em cada madrugada, nesta semana maravilhosa. A Romaria é um salto temporal na nossa existência, uma pequena porção de tempo da nossa vida que se torna admirável, espantosa e extraordinária.

Quando me pedem para explicar a Romaria, eu simplesmente afirmo que é inarrável, indescritível e inefável. Algo que dificilmente pode ser exprimido por palavras. É algo que tem de ser percorrido, vivido, partilhado, palmilhado e sentido!

A Romaria faz-se caminhando, ou faz-se acompanhando na jornada quem caminha, dando acolhimento, carinho e alento. Há algo de especial, algo de sobrenatural, nesta partilha, nesta entreajuda, nesta comunhão e nesta vivência comunitária.

Como afirmou, Ludwig Wittgenstein (1889-1951), filósofo austríaco, naturalizado britânico: “Filosofar é como tentar descobrir o segredo de um cofre: cada pequeno ajuste no mecanismo parece levar a nada. Apenas quando tudo entra no lugar a porta se abre”. A verdadeira essência da romaria vive-se no momento em que o nosso coração se abre espontaneamente a Deus e aos Irmãos, e cada um de nós, romeiro, parece descobrir os segredos da sua existência, dando oportunidade à luz divina de iluminar com alegria a nossa vida e o nosso ser.

A Romaria vive-se! Não se explica… Não se descreve… Não se exprime…

Cada Romeiro encontra nesta maravilhosa semana a energia, a força e a luz que iluminam a sua existência ao longo da sua vida. Não importa o que levou o romeiro a fazer-se ao caminho. Não importa aquilo que ele é! O importante é aquilo que ele encontra no caminho! Cada um descobre, em si mesmo, um renascer de luz!

A vivência religiosa de cada irmão, que caminha durante uma semana, desde a madrugada até ao cair da noite, cantando e rezando a sua fé, prestando culto nas várias igrejas, ermidas e capelas, é espelho de uma experiência mística, fundada na partilha de bens, na comunhão entre os homens e na caridade cristã.

A Romaria pode ser uma experiência individual, mas é sobretudo uma vivência comunitária. Uma experiência participada por todos os irmãos que vão no Rancho de Romeiros, que se faz ao caminho, mas também por todos aqueles se se cruzam com o Rancho ao longo do caminho. Os irmãos e as irmãs que procuram junto do Procurador das Almas o seu conforto, através da oração, também são romeiros, tal como o são aqueles que nos dão carinho e palavras amigas durante a semana e aqueles que nos acolhem e nos protegem do ar frio da noite.

Participar na Romaria é uma experiência que marca profundamente o espírito de cada irmão, que é acolhido ao cair da noite, em casa de um (a) irmão (ã) que lhe dá guarida, conforto, alimento e carinho.

Jesus Cristo numa frase singela resumiu o espírito da irmandade que é a Romaria: “Amai-vos uns aos outros como irmãos”.

A Romaria é uma experiência multifacetada. Pode ser uma penitência, um sacrifício, um sofrimento (principalmente nos casos dos irmãos mais acanhados), uma promessa para cumprir (ditada após uma situação de aflição), mas não se pode reduzir a um simples ato penitencial. Muitos irmãos encontram na Romaria a força e a alegria que vão iluminar a sua existência durante todo o ano. A Romaria, para estes, é sobretudo a alegria de conviver em comunhão com Cristo!

Na caminhada, o martírio do corpo transforma-se ao longo da caminhada numa libertação do espírito e num elevar da alma, que se manifesta pelo renascer de um novo ser. Em cada um dos irmãos, dá-se um desabrochar de alegria no coração e o caminho ilumina o renascimento de um novo ser.

Em cada romeiro o espírito de caridade cristã floresce, brotando do seu interior a infindável vontade de proclamar repetidamente a sua fé, louvando o nome do Ser Supremo – Deus, a vida de Jesus Cristo e da Sua Mãe Maria Santíssima.

Cada passo, no caminho, dado pesadamente, e marcado pelo esforço e o cansaço, é uma progressão no caminho para Deus. Cada vez mais longe de casa, o romeiro está mais perto do seu coração. A caminhada é encontro de cada um consigo mesmo e com os outros homens.

Esta devoção profunda, este ímpeto, este querer continuar a caminhar, este esquecimento do mundano e material, esta vivência de união com Deus e com os outros irmãos (os que caminham connosco e os que nos auxiliam ao longo da caminhada) é também catarse: é purificação, é uma força de libertação interior que supera a própria existência humana.

A Romaria é forma do ser humano demonstrar a sua fé inabalável em Deus e acreditar nas suas graças. Esta forma tradicional, secular, peculiar e única de demonstrar a fé pelo sacrifício, no longo e incessante caminhar, torna-se através da oração e das preces numa transformação do espírito.

Todo aquele que já sentiu no seu interior a alegria e satisfação de partilhar o caminho, nesta semana, com outros irmãos, quando chega ao fim desta Maravilhosa Semana, sente dentro de si uma infindável vontade de repetir esta experiência profunda.

A Romaria é uma tradição secular que se fundamenta em valores como a união, a fraternidade, a caridade, a partilha, a comunhão e a amizade.

Um Rancho de Romeiros vive a alegria e a paz da comunhão e no sentimento comum de santidade proveniente da oração invoca a manifestação do Espírito Santo que fortalece a Irmandade e a união entre os homens e Deus.

O grande Mistério e Milagre da Romaria são as próprias vivências que ela proporciona. Só quem já participou, quem caminhou, sofreu, sentiu, emocionou-se, e chorou na cerimónia de chegada/despedida dos irmãos romeiros, tem a consciência da grandiosidade e magnitude desta vivência religiosa.

No momento em que finaliza esta caminhada de fé, cada romeiro sente dentro do seu «mimoso» coração com ansiedade, fé, vontade e amor uma força suprema que o chama sem cessar, e que o impele de novo a caminhar…

O que cada um de nós quer ser na sua comunidade após a chegada… O que cada um de nós quer viver na romaria da vida, após caminhar, é um segredo que brota no nosso coração…

O verdadeiro sentido da Romaria é construir Homens Novos. Homens que, na chegada, encontram um ponto de partida para se fazerem ao caminho com alegria como testemunhas de Cristo.

*É Irmão do Rancho de Romeiros da Senhora da Luz Pedreira/Vila de Nordeste.

(Artigo publicado na página dos Romeiros em A Crença)