D. Pio Alves abordou morte de Manoel de Oliveira

O presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, da Conferência Episcopal Portuguesa, enalteceu “a extraordinária importância” da carreira do cineasta Manoel de Oliveira, falecido esta quinta-feira.

Numa mensagem de homenagem àquele que era “reconhecido como o mais antigo cineasta do mundo em atividade”, D. Pio Alves destaca “a ardente procura do absoluto que todo o seu cinema configura, revisitando com sensibilidade a tradição cristã e auscultando também as interrogações de infinito que o coração humano não deixa de colocar”.

“De Manoel de Oliveira se pode dizer aquilo que dos grandes mestres se diz: que ele foi um grande apaixonado do absoluto e transmitiu esse amor de uma forma incomparável; que ele fez do cinema uma grande arte do espírito. Por tudo isto, a cultura portuguesa e a Igreja em Portugal lhe estão gratas”, realça o bispo auxiliar do Porto.

Em particular, D. Pio Alves refere um dos seus trabalhos mais “inesquecíveis”, “O Acto da Primavera”, filmado “na Páscoa de 1962” e dedicado à “vivência popular dos mistérios da Paixão de Jesus”.

“Ao iniciarmos esta Páscoa de 2015 vemos partir o grande criador”, escreve D. Pio Alves, que dá conta da “emoção” com que a Igreja Católica em Portugal, e mais concretamente o seu setor pastoral da Cultura, “se associa a todos quantos nesta hora relevam a perda de uma figura de primeiro plano da cultura portuguesa”.

Para o prelado, a vida e obra de Manoel Oliveira foram ao encontro do papel que o Concílio Vaticano II atribuiu às artes: serem “um componente necessário do património de cada comunidade humana” e ajudarem “a pessoa humana a chegar a uma autêntica e plena realização”.

Sobretudo a partir de outros dois “traços” bem vincados na sua “ampla herança”, para lá da já citada “procura do absoluto”.

Em primeiro lugar, “a sua desassombrada aposta em recuperar a dignidade e a verdade da palavra como documento humano que é, contrariando com isso toda uma tendência de banalização e empobrecimento verbal”.

“A riqueza imagética do seu cinema é, por isso, indissociável do reconhecimento civilizacional que a palavra continua a ter como lugar de procura e de revelação de um sentido maior”, salienta o bispo.

Depois, a forma como recorreu ao cinema para, “escapando à tentação de ancorar-se unicamente na espuma do presente, e num desejo de compreendê-lo em profundidade, refletir de forma obstinada sobre o destino nacional”.

Neste particular, o seu trabalho “tornou-se um mapa particularmente fecundo”, conclui o presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais.

Manoel de Oliveira faleceu esta quinta feira aos 106 anos de idade, depois de uma carreira como realizador que contou com mais de 50 filmes e que foi distinguida pela Igreja Católica em 2007, através da atribuição do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes.

CR/Ecclesia