Proposta de intervenção prevê reforço da componente social reatualizando princípios fundadores do Convento da Esperança

Além da necessidade de conservar aquilo que já existe, o Santuário do Santo Cristo, em Ponta Delgada, prepara-se para os desafios futuros retomando uma função social, para além da de culto, que remonta aos anos da sua fundação.

A proposta prévia de intervenção, faseada e delineada em três projetos “autónomos mas pensados de forma integrada” prevê um “ajustamento do edifício às necessidades da sociedade de hoje”, disse ao Sítio Igreja Açores, um dos autores da proposta, o arquiteto Pe José Manuel Ribeiro.

“Procurámos elaborar uma proposta que resultasse de um compromisso entre aquilo que são as exigências que decorrem do auto de cedência do edifício à Diocese, as respostas que hoje a sociedade exige deste espaço que é Santuário mas que no passado teve uma componente social forte e aquilo que o edifício em si comporta”, destaca o arquiteto.

Inequivocamente, na proposta há “um claro reforço da componente social” em várias dimensões. Desde logo o serviço social e espiritual de acolhimento aos peregrinos , que tem a ver com a função de lugar de culto.

Este Centro de Acolhimento aos Peregrinos, passará pela reconstrução do bloco nascente do Pátio da Roda, que no rés do chão vai ter um espaço de apoio médico e um espaço de divulgação e comercialização de objetos relacionados com o Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, e no andar superior serão construídos cinco quartos e uma sala de acolhimento, reservados aos peregrinos que queiram prolongar o momento de recolhimento ou de retiro espiritual.

Na sequência deste reforço da componente social, está igualmente prevista a construção de um Centro de Acolhimento Juvenil, destinado a receber jovens e adolescentes grávidas. O Centro terá 10 quartos individuais e está projetado para receber todas as valências exigidas pela legislação social, desde gabinetes médicos, de enfermagem, de acompanhamento técnico aos mais variados níveis, na medida em que se pretende acolher as jovens desde o momento da gravidez ao momento do pós parto e todo o período que se segue e que as prepara para a reintegração social.

“Será um espaço onde as jovens terão o maior acompanhamento e, simultaneamente, a maior privacidade, sem ser naturalmente um espaço fechado”, disse ainda o Pe José Manuel Ribeiro sublinhando que o espaço será construído junto ao Pátio da Vinha do Convento da Esperança, aliás “esta disposição dos vários pátios e recantos do convento” foi toda respeitada na proposta prévia que concebeu a distribuição das diferentes valências.

No caso das jovens adolescentes é também o recuperar de uma tradição histórica deste Convento que acolhia crianças dadas para adoção e deixadas na Roda como também mães e jovens de famílias desestruturadas.

A terceira componente desta vertente social prende-se com a criação de um espaço para o Centro de Acolhimento Sénior, que vai ser erguido nas antigas instalações do lar juvenil, na ala poente do edifício, que confronta com a Avenida Roberto Ivens. Este Centro servirá para acolher pessoas com doenças neurológicas degenerativas em fase terminal, como a doença do Machado Joseph. Terá duas valências: uma de apoio domiciliário e ambulatório e outra de internamento. No primeiro caso destina-se a pessoas que estejam a receber tratamentos temporários mas que conservam autonomia e aí existirão quartos duplos; no segundo trata-se de um internamento já em fase terminal e aí os quartos serão individuais “para preservar alguma privacidade”.

“Os dois exemplos apontados prendem-se com necessidades sociais cujas respostas existindo são insuficientes”, precisou o arquiteto que liderou as explicações sobre o projeto, na conversa mantida com o Sítio Igreja Açores, durante a qual esteve presente, entre outros, o Reitor do Santuário, Monsenhor Augusto Cabral.

O terceiro conjunto desta intervenção tem em conta a necessidade de criação de um núcleo museológico, que será “integrado na rede museológica regional, conforme garantido pelo Diretor Regional da Cultura”.

Este espaço pretende ser “uma reconstrução da narrativa da vida conventual ao longo dos tempos desde o século XVI até hoje”.

Este espaço integrará a Capela do Santo Cristo, o Santuário de Nossa Senhora da Esperança, o Claustro, a Sala das Capas e dos Bens do Senhor, a cozinha conventual, o Coro alto e o Coro baixo.

Paralelamente, estão pensados espaços para o Tribunal Eclesiástico, para o Gabinete do Vigário Episcopal para a ilha de São Miguel, para os aposentos do Bispo de Angra  (que passa a ter aqui a sua residência oficial quando se deslocar a São Miguel) bem como as salas de apoio para  todos os movimentos diocesanos.

Será, igualmente, intervencionada a zona de “estalagem” de apoio às atividades pastorais que manterá o mesmo número de quartos embora esteja prevista a sua remodelação.

Haverá, ainda, um espaço para salas de orientação espiritual, um auditório para cerca de 120 pessoas e serão mantidos o Cenáculo e a Capela de Nossa Senhora da Paz, embora ambos com intervenções previstas de forma a garantir a sua conservação.

As salas destinadas à Irmandade do Senhor Santo Cristo manter-se-ão, embora o espaço de arrecadação, onde a Irmandade, responsável pela organização das Grandes Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, no quinto domingo a seguir à Páscoa, seja transferido para o atual parque de estacionamento dentro do convento, junto à fábrica Melo Abreu, onde será construída uma instalação para o efeito.

Aliás, a pedido da Irmandade, a cozinha do Convento dará, também,  apoio a um conceito de “cozinha social” onde serão confecionadas refeições para distribuir junto de famílias carenciadas que habitualmente já são acompanhadas pelos irmãos.

A Congregação das Religiosas de Maria Imaculada, atualmente composta por sete irmãs residentes em Ponta Delgada, manterá o atual espaço que ocupa, que de resto já foi melhorado por fundos da própria congregação.

“Desde que foi fundado este Convento respondeu sempre ás necessidades da sociedade. Por isso, esta intervenção tinha de ser pensada neste pressuposto” frisou o arquiteto que lidera o projeto de intervenção lembrando, no entanto, que por se tratar de um investimento expressivo, “que para já não pode ser quantificado porque depende ainda de estudos técnicos mais aprofundados”, que só serão feitos se a proposta for validada, “todas as respostas que encontrarmos têm de ser suficientemente flexíveis para responder às necessidades da sociedade civil em cada momento, agora e no futuro”.

Esta proposta tem o aval da Diocese e aguarda uma resposta concreta das entidades parceiras, que se comprometeram a encontrar as soluções financeiras para a levar por diante, ainda que de forma faseada, especialmente o Governo regional dos Açores e a Câmara Municipal de Ponta Delgada, sendo certo que muitos destes projetos serão candidatáveis a linhas de apoio financeiras regionais e europeias.

A primeira fase deste projeto, “se tudo correr bem” poder-se-á iniciar no próximo ano.