Opinião  é de Monsenhor Augusto Cabral, Vigário geral da Diocese há 25 anos quando o papa polaco visitou os Açores

Sítio Igreja Açores- Estamos a assinalar 25 anos da passagem de São João Paulo II pelos Açores com um convite dirigido ao Papa Francisco para vir à diocese no próximo ano. É uma coincidência feliz, que pode ser interpretada como um sinal do Espírito Santo?

Monsenhor Augusto Cabral– Coincidência felicissima é a melhor maneira de comemorarmos as bodas de prata de um a visita papal à nossa Igreja local.

 

Sitio Igreja Açores- O senhor foi o interlocutor privilegiado nesta organização. Acha possível que o Papa Francisco também possa vir aos Açores no próximo ano?

Monsenhor Augusto Cabral- Possível é, agora a sua execução depende de muitos factores que seria enfadonho aqui e agora enumerar mas costuma-se dizer que, quando há boa vontade tudo se resolve embora saibamos que a deslocação do Papa a qualquer sítio é sempre bastante complicado e complexo.

 

Sítio Igreja Açores- Como é que foi naquela altura organizar a visita do papa, sendo a primeira vez e havendo muito menos possibilidade de comunicação direta?

Monsenhor Augusto Cabral- Não foi nada fácil naquela altura mas a motivação das pessoas era tão grande que não havia obstáculos intransponíveis nem problemas que não se resolvessem e nem possibilidades de desânimos e de indiferenças. A organização começou em juntar as diversas entidades a colaborar: diocese, governo, militares, forças de segurança e comunicação social. Foi nomeada uma comissão central e escolhidas as diversas comissões consoante as diversas vertentes relacionadas para se começar a trabalhar  dentro do específico de cada uma. A partir daí a comissão central orientava, acompanhava e resolvia os muitos problemas que iam aparecendo. E foram muitos, e cada vez mais difíceis de solucionar. O Vaticano tem um programa de muitas exigências uma mais gerais do que outras e algumas mesmo com hipótese de várias alternativas e cuja execução e andamento foram, em certa altura,  encaminhadas para uma determinada comissão.

 

Sítio Igreja Açores- Na altura a visita foi muito centrada no Governo. Qual foi o papel da diocese?

Monsenhor Augusto Cabral- De facto, foi bem centrada no Governo regional porque foi quem possuía de imediato as ferramentas e a estrutura deveras necessárias para manter todo o projeto a concretizar, assim como a variada gama de pessoas especializadas para os diversos sectores a trabalhar que, naturalmente, foram a alma de toda a riqueza e beleza que muito bem resultou nas duas ilhas onde esteve o Papa João paulo II.

O papel da diocese foi também muito importante, sobretudo na mentalização, na preparação espiritual e na motivação das pessoas e das comunidades paroquiais não esquecendo as relações com os meios de comunicação social na projeção mundial num acontecimento único para nós como foi aquele naquela altura.

Igualmente importante o papel da diocese não só na sua preparação e execução mas também depois da sua visita, procurando refletir e seguir as orientações que o papa nos deixou como pastor da igreja universal nas diversas vertentes da pastoral da Igreja.

 

Sítio Igreja Açores- Que episódio recorda para o bem e para o mal?

Monsenhor Augusto Cabral- Como naquela altura se vivia nas visitas papais um ambiente de medo e de desconfiança devido aos ataques de que o próprio Papa João Paulo II tinha sido vítima, as nossas forças de segurança tinham previstas e seguradas em pormenor todas as suas deslocações em todos os sítios, casas e lugares, previamente inspecionados. Aconteceu que no cortejo da rua da Sé estava prevista uma paragem em frente à Sé Catedral e não uma entrada na mesma. O papa quebrou todos os protocolos e dirigiu-se calado e apressadamente para a Capela do Santíssimo Sacramento dentro da Sé onde se ajoelhou e esteve uns breves momentos em oração, voltando depois e integrando-se normalmente no cortejo sem nada dizer.

A preocupação pela sua segurança era de tal ordem que, quando o avião descolou do nosso aeroporto, todos suspiramos agradecendo a Nossa Senhora por o ter levado em paz.

 

Sítio Igreja Açores-  Hoje seria mais fácil organizar uma visita desta natureza?

Monsenhor Augusto Cabral- Creio que será bastante mais fácil visto que hoje é mais fácil ter gente com disponibilidade a diversos níveis e mais gente para escolher e relacionar. No entanto é certo que hoje as exigências também são maiores e mais qualificadas. Creio que será uma boa gestão de meios assim como de pessoas tendo em conta os objetivos programados.

 

Sítio Igreja Açores- João Paulo II em Ponta Delgada virou-se para os fieis e disse-lhes: não tenhais medo: rezou ao Santo Cristo, de joelhos numa imagem que percorreu mundo. Como é que hoje, à distância de 25 anos e como atual reitor do santuário vive esta memória?

Monsenhor Augusto Cabral- Foi o retomar duma afirmação evangélica que o próprio Jesus Cristo disse um dia aos seus discípulos quando lhes apareceu e andou sobre as ondas do mar: “Sou eu não temais”. O contexto e as pessoas são muito diferentes, mas o conteúdo da mensagem é o mesmo. Vivo aquela memória como a de um Santo a rezar ao Senhor Santo Cristo dos Milagres para que nós todos não tenhamos medo de sermos cristãos e evangelizados neste mundo em que vivemos e no lugar onde trabalhamos. Se o papa Francisco nos vier visitar no próximo ano fará o mesmo por outras palavras e talvez com outras intenções.

 

Sítio Igreja Açores- Que semelhanças há entre este Papa Francisco e São João Paulo II?

Monsenhor Augusto Cabral- As comparações são sempre difíceis e perigosas em qualquer pessoa e nestes dois papas ainda mais difíceis tratando-se de duas personalidades e dois pastores de uma riqueza enorme e escolhidos a dedo pelo Espírito Santo para que com a sua missão consigam responder aos problemas maiores da humanidade e tracem um caminho de autenticidade evangélica para a igreja.

São dois santos, dois líderes, dois pais desta família mundial e dois pastores, cada um à sua maneira. Parece-me que João Paulo II foi uma Papa à maneira de São Paulo, preocupado com os que estão fora do rebanho da igreja, não esquecendo os de dentro e o papa Francisco mais à maneira de São João, preocupado com os de dentro, com a sua unidade e crescimento, sem esquecer os de fora mas de um modo diferente.

 

Sítio Igreja Açores-  São João Paulo II lutou contra os regimes totalitários ateus; o Papa Francisco luta contra os poderosos que oprimem e não se cansa de denunciar aquilo que chama a terceira guerra mundial em episódios. Ambos são homens que cumprem muito o papel da igreja no diálogo com o mundo, tal qual é definido na Guadium et spes. É possivel estabelecer paralelos entre os dois?

Monsenhor Augusto Cabral- Paralelos há sempre no diálogo com o mundo e os seus problemas, os quais são nascidos da relação entre a fé a cultura. João Paulo II procurou dizer à humanidade que ninguém tem a verdade absoluta ou é dono dela senão Deus que através de Jesus Cristo se identificou com ela e que ela é para todos e cada um o caminho e a vida. Francisco, supondo tudo isto, tem procurado combater a grande tentação do mundo atual, do poder, fazendo uma pedagogia evangelizadora, concretizada na afirmação de que só tem autoridade verdadeira aquele que sabe ouvir , que é uma categoria do ser e não do ter.

 

Sítio Igreja Açores- O papa Francisco, à maneira dos exercícios espirituais de Santo Inácio não desiste: vai sugerindo, vai mostrando. Vai-nos encaminhando, sem imposições mas guiando-nos. Como vê este pontificado, depois de já ter vivido tantos pontificados diferentes?

Monsenhor Augusto Cabral- Vejo com muita expetativa, esperança e alegria porque não impõe nada como grande líder que é e através do seu testemunho arrasta as pessoas e elas seguem-no porque ele é um ícone de atração para qualquer pessoa. Conheci já seis pontificados e de todos eles tenho boas recordações, precisamente porque foram pessoas humanamente ricas e a graça e a missão de um pastor universal assentou-lhes muito bem. Com efeito, a graça supõe a natureza principio que se aplica muito bem a sua Santidade o papa Francisco.

 

Sítio Igreja Açores-Que caminho é este que a igreja está a fazer?

Monsenhor Augusto Cabral- Penso que é o caminho resultante do aprofundamento do diálogo fé/ cultura atual, em que perante o abandono da prática cristã de grande parte dos cristãos, sobretudo de adolescentes e jovens, temos de fazer uma evangelização mais catecumenal e não só de natureza escolar.Ou seja, propor não apenas conhecimentos cerebrais mas encontro pessoal com Cristo vivido em dinâmica vocacional. Tenhamos todos coragem de responder a estes desafios apresentados pouco a pouco pelo Papa Francisco e partilhar as nossas vidas e convicções para que com a força do Espírito Santo as possamos aproveitar e praticar.