Por  Monsenhor  António Manuel M. Saldanha e Albuquerque

Estes dias os Açores ajoelharam diante de uma imagem de madeira, coroada de espinhos, com os braços amarrados e com veios de sangue a escorrer pela face onde se pode ver atroz chaga.

A “descoberta” deste hoje tão venerando busto, deve-se a Madre Teresa da Anunciada, uma freira da Ordem Franciscana das Clarissas do Convento da Esperança. A sua existência não era por certo desconhecida, tratando-se de uma obra do século XVII e a religiosa viveu no seguinte. Foi uma sua inspiração profunda que ditou um verdadeiro encontro de olhares suficientemente forte para dar origem a um culto, a uma veneração que dá sinais de perdurar até que o tempo seja tempo. E deu àquela religiosa a justa fama de santidade.

Milagres, graças, cataclismos silenciados, doenças vencidas, mortes adiadas, consolidaram nos séculos um culto que nascendo entre barras claustrais e muros insuperáveis, ultrapassou parlatórios e claustros, para lançar nas almas dos ilhéus açorianos uma profunda raiz de fé, devoção e amor a Deus.

As jóias que hoje cobrem o seu busto são uma espécie de reparação do irreparável feito há vinte séculos a Jesus. Os instrumentos de tortura, açoites, cordas, coroa de espinhos, um fingido ceptro de cana grosseira e uma capa de escárnio, hoje ali estão feitos em ouro, pérolas, pratas, topázios, ametistas e mais pedras preciosas, que não escondem a dor sofrida pelos nossos pecados, mas acrescentam-lhe o preito dos fieis e o sincero desejo de remissão.

Jesus humanizado, o Deus feito Homem, que descobrimos nas páginas do Evangelho a comer com os homens e mulheres filhos do escândalo, a perdoar gente que vendeu corpos, a proclamar as bem-aventuranças num intemporal discurso, hoje na Ilha de São Miguel ali está, materializado num busto, continuando a olhar, a ouvir e a falar aos milhares de açorianos e não só, que lhe confidenciam dores e aflições ou que lhe agradecem a impensável graça finalmente alcançada.

Diz com desprezo aos ídolos o autor sagrado, que estes são de ouro e prata, têm olhos, mas não vêem, têm boca, mas não falam.

O Senhor Santo Cristo dos Milagres foge desta espécie de apostrofação. Incrivelmente, o seu busto, ouve, vê e fala, porque através dele, uma porta se abre até Deus pela oração e súplica dos fiéis. Atesta-o três séculos de penitências, orações e promessas cumpridas aos milhares e uma das maiores procissões religiosas que existe em Portugal.

*Este texto foi publicado no boletim da Ordem de Malta, por ocasião da Festa do Senhor Santo Cristo. Monsenhor Saldanha e Albuquerque  serve na Congregação da Causa dos Santos, no Vaticano.