Por Renato Moura

A abstenção sobe em cada acto eleitoral. Há muito que várias forças prometem tomar medidas para aproximar os eleitos dos eleitores, nomeadamente alterando as leis eleitorais, mas, passados os dias de avaliação, ou se não pensa mais nisso, ou a uns não convém ou os outros não chegam a acordo.

Já ninguém consciente contesta que há uma crise de confiança na política e nos partidos. É inegável que a qualidade da representação é cada vez pior. É indiscutível que a crença dos cidadãos nos partidos está em claro decréscimo. Há, concomitantemente, um afastamento cada vez maior por parte dos cidadãos que evidenciam desinteresse pela participação na vida política. A responsabilidade pelo actual estado das coisas é de quem é eleito, mas também de quem elege e ainda dos militantes dos partidos.

Se não analisar e nada se fizer para regenerar a política e credibilizar os partidos, a crise agrava-se progressiva e profundamente. Aponta-se para uma reforma quantitativa, passando pela redução do número de eleitos, mas creio que o principal problema é qualitativo. Os eleitores não podem gostar de os partidos lhes impingirem candidatos sem provas dadas e sem notoriedade, alguns que anteriormente concorrendo em outros partidos tiveram péssimos resultados, que só acabam eleitos acobertados pela força do partido no poder.

É certo que os eleitos receberam um mandato de representação dos eleitores, que confiam em que aqueles defendam os seus interesses justos e legítimos. Mas ninguém detém estima e confiança num advogado distante, que não cuida de conferir periodicamente a sua actuação com quem o mandatou, ou não tem disponibilidade para ouvir em questões que não estavam previstas no momento da atribuição desse mandato, ou não está disponível para ouvir críticas.

Trate-se de órgãos executivos, legislativos ou deliberativos, a aproximação dos eleitores é indispensável para conseguir eficácia. Ninguém é capaz de decidir perfeitamente naquilo que não conhece bem. Quem exerce a política, seja a que nível for, precisaria de conhecer as potencialidades e os bloqueios de cada uma das zonas que lhe estão confiadas, deveria partilhar as vivências das pessoas que as habitam.

E isso não se apreende na caravana eleitoral, nem no ambiente do comício. É preciso ir lá, reunir com grupos, falar com pessoas, não recear as críticas ou sequer as contestações formais.

Até nos pequenos concelhos os presidentes e vereadores deveriam visitar demoradamente as freguesias, pernoitar lá, sentir na pela o que nelas se vive e se sofre.