Pelo padre Marco Sérgio Tavares.

Tatamailau é o nome da mais alta montanha de Timor. Era também, não sei se ainda existe, o nome de um grupo de folclore étnico timorense que nos saudosos anos 90 atuou num festival internacional de folclore que decorria na Cidade Património de Angra. Desde então esse nome ficou-me no ouvido pela descrição que o dançarino e apresentador do grupo na altura fez. Tatamailau significa “voa mais alto”.

Num tempo em que os aeroportos de placas giratórias de multidões viraram quais claustros de conventos abandonados; onde os aviões estão mais em terra que no ar; onde as companhias aéreas cancelam destinos, entregam as aeronaves aos fornecedores; férias adiadas ou mesmo suspensas, vouchers renovados mês a mês – a provocação deste título nesta Quaresma e neste pandémico 2021.

Voar não estava destinado aos humanos. Somos “adamah”, “adam”, terra, solo, chão batido, um voo cancelado. Fomos feitos para o caminho, para a romagem e não para o voo. Os pássaros são livres porque voam ou, melhor, “só os pássaros são livres”, escreveu alguém.

Nas páginas bíblicas só os pássaros voam ou então o vaivém dos seres angélicos. Até mesmo o Filho do Homem se diz que subiu às alturas à vista dos discípulos, que andou sobre as águas, mas nunca voa. Que mistério ou que simplicidade estarão associados ao drapejo?

Porque chegamos do passado e olhamos o futuro, o sucesso económico, e não só, faz-nos depender dos aviões. E eu gosto tanto de ver os aviões como os pássaros. Invejo os pássaros como invejo um comandante de um avião, permita-me o leitor a paciência singela da comparação.

Como saímos daqui? Voando, sonhando e imaginando. A imaginação permite o sonho, a criação e o acesso a mundos novos. Seja este o ano, o tempo ou a altura de darmos mais valor ao altímetro e, nem que seja em sonhos, nos seja permitido voar mais alto. Mesmo quando os instrumentos de voo falham um após outro, há sempre a experiência e a astúcia do piloto e as suas longas horas de voos diurnos e noturnos de curta e longa distância.

É que se saímos subindo os regressos são normalmente em descida. Há anos, um voo “terrível” para qualquer “aerodromofóbico”, num inter-ilhas, entre vários passageiros num icónico ATP, íamos dois padres e uma religiosa. À abertura dos compartimentos de bagagens de mão e poços de ar, a religiosa tirou um terço e meteu-se a rezar. O colega perguntou-me: “já rezaste ao Menino Jesus?” Não me recordo se era a rir nervosamente se descontraído… soltei uma gargalhada enquanto me segurava na janela do aparelho e no braço do banco e devo ter dito qualquer coisa como quem acredita naquele que vai ao comando. Porque invejo os pilotos e os pássaros.

E porque quem voa também sabe andar recordando as palavras do Mestre: “olhai as aves do céu”, há dois anos, sensivelmente por esta altura quaresmal, quando as romarias esvoaçavam em liberdade pelos caminhos, trilhos e atalhos de São Miguel, um arcanjo, e os ranchos, quais bandos de aves que vão deixando cair pelo caminho os cadilhos dos xailes, como se fossem plumas, tive o gosto de dar pernoita na casa paroquial a um irmão romeiro, por sinal piloto aviador. À mesa, e às voltas com as perguntas e respostas – porque caminhas romeiro? – ousei questionar: “um homem que voa sabe caminhar em romaria? Da boca do irmão saiu aquela Boa Nova que todo o Romeiro transporta, como aquela bonita expressão contida no conto que Anthony De Mello propõe no seu livro “O canto do pássaro”, quando depois de o mestre afirmar que Deus é Incognoscível, os discípulos perguntaram: “Então porque falas tanto sobre Ele?” O Mestre respondeu: “E porque canta o pássaro? O pássaro não canta porque tenha qualquer afirmação para fazer. Canta porque tem um canto no coração”, o romeiro aviador com o sorriso de quem transporta a calma de um voo sem ocorrências e anuncia “cabin crew take your seats for landing”, respondeu: “Sim, caminha…aliás, aprendeu primeiro a caminhar do que a voar”.

Nós que já caminhamos… porque não voamos?

 

Pe Marco Sérgio