Por Carmo Rodeia

A pouco mais de duas semanas do inicio das Festas do Senhor Santo Cristo, o Reitor do Santuário, Monsenhor Augusto Cabral, fala do tema das festas- A Fé, Caminho da Salvação-; da necessidade dos cristãos despertarem para “o amor e para a entrega total da vida”; das dificuldades “que podem transformar-se em oportunidades”; das finanças do Santuário e dos desafios. Para trás ficam as divergências “completamente ultrapassadas” entre o Santuário, a Irmandade, a Diocese e os fieis, por causa da cedência temporária do resplendor do Senhor Santo Cristo. As festas vão ser presididas pelo Bispo auxiliar de Braga, D. Francisco Senra Coelho,  “amigo pessoal de D. António” e o tríduo preparatório ficará a cargo do Cónego Ângelo Valadão.

 

Igreja Açores- A mensagem escolhida para a festa deste ano- A Fé: Caminho de Salvação- já está muito inserida no espírito do ano Santo da Misericórdia, que o Papa acaba de convocar. Qual foi o objetivo?

Reitor do Santuário- Nós escolhemos este tema para ajudar a compreender a misericórdia. Se não houver fé, a misericórdia fica para trás. No fundo, a mensagem fundamental que temos de rever nesta festa é a bondade de Deus para com a humanidade que se exprime de várias maneiras, do amor à bondade, sem esquecer justamente a misericórdia. O Ecce Homo não é mais do que o terceiro mistério doloroso do terço, a coroação dos espinhos, um dos quadros da via sacra e é a manifestação de misericórdia com a  humanidade;  é isso que nós temos de reaprender e de celebrar.

 

Igreja Açores- A celebração da festa é uma forma de agradecermos essa entrega e esse amor…

Reitor do Santuário- Com certeza e devemos fazê-lo todos os dias, particularmente nesta festa. Temos que manifestar que acreditamos que Ele veio para nos salvar. O que é a encarnação senão a manifestação da bondade de Deus? A encarnação é o primeiro sinal deste amor de Deus e diz-nos que o seu filho veio ao mundo para nos salvarmos. Senão compreendermos isto não compreendemos nada.

 

Igreja Açores- De que forma esta festa pode ajudar nessa catequese?

Reitor do Santuário- Há coisa melhor no mundo do que um filho ver que um pai ou uma mãe o amam até ao fim, independentemente de cada circunstância da vida? Um pai e uma mãe estão sempre disponíveis para irem dando a vida pelo seu filho. E se o filho não acredita no pai ou não mãe, neste amor e nesta entrega, não há simbiose. Isto é, há a misericórdia dos pais para com o filho mas não há do filho para com os pais e isso destrói a relação. Este filho é a humanidade. Que é filha de Deus e esta filha tem que compreender e acreditar que esse Deus é amor, ternura, compaixão e… misericórdia, que mais não quer dizer do que coração disponível.

 

Igreja Açores- Mas não é isso que vemos, mesmo no mundo cristão. Há cada vez menos disponibilidade para o outro, a começar em casa, na família, que deveria ser a igreja doméstica…

Reitor do Santuário- A nossa sociedade é consumista e materialista. Falta-nos reconhecer que estamos neste mundo para darmos vida. Deus deixou a palavra que é vida e esse património eterno que nos deve orientar em toda a sua vida e deve ser usada como deve ser. Um pai e uma mãe quando se amam, se juntam, querem dar vida e depois quando essa outra vida nasce vão-lhe dando mais vida aos bocadinhos, através de uma entrega. Esta entrega tem que ser total dos pais para os filhos, dos filhos para os pais. A vida só faz sentido com esta entrega.

 

Igreja Açores- Esta é uma festa da família. Aliás, a ideia de união entre as pessoas está muito presente. Durante estas festas este aspeto vai ser sublinhado?

Reitor do Santuário- O Santo Cristo cativa as pessoas, desde os mais crentes aos mais desligados. Mas Ele e a Sua Mãe, reúnem todos e tudo. Seja do ponto de vista físico seja do ponto de vista espiritual.

Esta é a catequese que falta fazer. Nós temos esta obrigação de a fazer e de a passar ás pessoas, não apenas do ponto de vista da inteligência mas do ponto de vista do coração. Uma fé inteligente é uma fé quase reacional, sem alma; é uma fé ritual. Temos de saber ter fé com o coração. Enquanto não saborearmos este amor e não o imitarmos nas nossas vidas, nada disto vale a pena.

 

Igreja Açores- A família açoriana está a ser capaz disso?

Reitor do Santuário- Não. Há um mundo de problemas. A família cada vez tem menos tempo para ser família o que limita as capacidades e possibilidades de serem família. Mesmo aquelas que têm condições e competências para o ser! A falta de tempo- físico e psicológico-, as prioridades invertidas minam a família. E isso já chegou, infelizmente aos Açores.

 

Igreja Açores- Há estímulos a mais na nossa sociedade que nos desvia do essencial?

Reitor do Santuário- Sem dúvida. Nós hoje temos mais tempo para fazer coisas do que para sermos irmãos,  uns com os outros; de nos olharmos, de nos entendermos; de nos preocuparmos uns com os outros. Com a preocupação de fazermos muitas coisas acabamos por fazer coisas inúteis e aí consome-se tempo que, se calhar , seria melhor empregue noutras coisas.

 

Igreja Açores- O papa Francisco identificou a doença: martalismo, funcionalismo…

Reitor do Santuário- Sim, regressando a Betânia, muitas das nossas famílias estão cheias de Martas. A igreja está cheia deste funcionalismo. Esta disponibilidade é importante porque precisamos desse empenho, mas tudo tem que ser doseado. A Teologia Ascética diz-nos que para progredirmos na nossa vida temos que encontrar uma ponta e começar por aí. Se queremos fazer tudo de uma vez, eliminando o negativo de uma vez ou conquistando o positivo de uma vez só, não fazemos nada de jeito.  Ninguém consegue, porque ninguém é super homem ou super mulher. Por isso, há que dosear e encontrar o caminho, passo a passo.

 

Igreja Açores- Essa é a preocupação desta festa, tal como todas as festas religiosas, colocar um ponto de ordem para uma nova reflexão e uma nova caminhada?

Reitor do Santuário. Sim, absolutamente. Sendo um momento das famílias se encontrarem são momentos propícios para que a família programe a sua vida. As famílias têm que se encontrar como célula de família e de amor.

 

Igreja Açores- Há um ano atrás, as festas iniciaram uma polémica que se prolongaria por algum tempo, concretamente até junho, altura em que o Resplendor do Senhor Santo Cristo saíu pela primeira vez da região. Não foi pacífico e houve momentos de muita tensão. Que sequelas ficaram desse desentendimento?

Reitor do Santuário- Está tudo ultrapassado…

 

Igreja Açores- Quer dizer que não ficaram mossas?

Reitor do Santuário- Não… as divergências existentes foram sanadas e não afetaram o relacionamento entre as pessoas e, por isso, esta festa tem todas as condições para ser uma grande festa.

 

Igreja Açores- Dessa ida a Lisboa resultou um estudo da peça que está com problemas de integridade. Quando é que o Santuário vai proceder à recuperação do Resplendor?

Reitor do Santuário- Assim que a Diocese o entender… estamos prontos para fazer todo esse trabalho. É só o Senhor Bispo dar o sinal.

 

Sítio Igreja Açores- Vivemos momentos de crise. E isso, naturalmente, que tem afetado a vida do Santuário. Sente que as pessoas dão menos do que davam?

Reitor do Santuário- Elas não estão menos generosas; agora é um facto de que podem menos e isso, naturalmente, que se reflete nas ofertas. A situação financeira do Santuário é estável para honrar todos os seus compromissos mas não somos alheios às dificuldades, ao esforço de contenção.

Sítio Igreja Açores- Isso quer dizer exatamente o quê?

Reitor do Santuário- Que as coisas já não são como antigamente. E nós continuamos a cobrir as despesas da diocese concretamente o Seminário de Angra e todos os alunos que estão em Roma ou noutras Universidades a formarem-se para servir a Diocese. Além de que temos as pessoas que nos pedem ajuda…

 

Sítio Igreja Açores- Tem aumentado o número de pedidos de ajuda?

Reitor do Santuário- Sim, tem aumentado muitíssimo. As irmãs, sobretudo, atendem muitas pessoas. Tudo isto está dentro da nossa missão e não é uma novidade; apenas chamo a atenção porque se calhar há pessoas que pensam que tudo se mantém como dantes e não se mantém infelizmente, do ponto de vista financeiro.

 

Sítio Igreja Açores- A atual situação compromete as obras de adaptação deste espaço para albergar os serviços diocesanos e também funcionar como verdadeiro Santuário, com zonas próprias de acolhimento?

Reitor do Santuário- Não compromete mas faz-nos pensar. Como disse a situação financeira é estável mas temos de continuar a fazer uma gestão muito rigorosa. O Santuário precisa de funcionar como tal. Acolher não só os peregrinos mas quem nos procura a pedir ajuda. Por isso, deixo aqui um apelo a todos de que as festas não se ficam apenas por este deslumbramento exterior. A misericórdia que elas encerram apela à generosidade das pessoas e felizmente temos muitas pessoas anónimas que continuam a ser absolutamente indispensáveis para que tudo se faça como antigamente.

 

Sítio Igreja Açores- Muitas ofertas são feitas ainda anonimamente…

Reitor do Santuário- Todos os dias peço e rezo pelos benfeitores desta casa… tudo isto é obra de misericórdia.

Sítio Igreja Açores- Em que ponto está o início das obras de reabilitação?

Reitor do Santuário- O projeto está em fase de apreciação pela diocese e pela Direção regional de Cultura. Sem o aval deles não iniciaremos nada, até porque as obras têm que ser candidatas a fundos estruturais, porque nós sozinhos não conseguimos faze-las.

 

Sítio Igreja Açores- Este ano as festas decorrem num novo quadro do turismo açoriano, com uma maior frequência de voos e ligações com o exterior. O que é que o Santuário fez concretamente para responder a um maior afluxo de peregrinos e turistas?

Reitor do Santuário- Os preparativos começaram esta segunda feira e já se sentem algum frenesim. As próprias missas já têm mais assistentes. A Irmandade e o Santuário estão a fazer os possíveis para que todos, em todas as circunstâncias, sejam bem acolhidos. O nosso lema vai ser a promoção do encontro. Todos os momentos verdadeiramente importantes na festa estão a ser tratados de forma muito minuciosa.

 

Sítio Igreja Açores- Quem pregará o tríduo preparatório?

Reitor do Santuário- Será o Cónego Ângelo Valadão, pároco nas Doze Ribeiras, na ilha Terceira. As festas propriamente ditas serão presididas por D. Francisco Senra Coelho, uma pessoa que conhece bem os Açores, que é amigo pessoal do D. António, que o convidou e que certamente dará bom testemunho nestas festas.

 

Sítio Igreja Açores- Quais são as suas expetativas?

Reitor do Santuário- Que seja um momento de grande espiritualidade e de encontro para que a nossa vivência de cristãos continue a ser um marco na nossa história e na nossa fé, como caminho de salvação. E, este caminho só será trilhado se houver conversão e reconversão permanentes. É a isso que nos convocam as festas deste ano. Por isso, todo este frenesim que já começou deve ser “acidente” para aquilo que é fundamental: termos a capacidade de agradecer a Deus tudo o que Ele nos dá no nosso dia a dia e agradecer também a Madre Teresa da Anunciada o que fez por este culto.

 

Sítio Igreja Açores- Como é que está o pedido de beatificação da Madre teresa?

Reitor do Santuário- Não está. O postulador nomeado pela diocese faleceu e desde então não foi nomeado outro. Por isso, esta causa está como que assim dizer em “banho maria”. Todas as graças que vou recebendo estão todas arquivadas, por isso, a todo o tempo que o Senhor Bispo decida podemos avançar com este dossiê.