Bispo de Angra participou na 200ª Assembleia Plenária dos bispos portugueses e alerta para as dificuldades criadas pela pandemia “na sociedade e na Igreja”

A sociedade em geral, e as paróquias em particular, vivem tempos difíceis que convocam a uma necessária solidariedade, afirmou o bispo de Angra em declarações ao Igreja Açores no final da Assembleia Plenária dos bispos portugueses, que desde segunda feira estão reunidos em Fátima.

Neste contexto de dificuldades “a Igreja tem de saber convocar e mobilizar todos para uma maior partilha. Esta pandemia pôs a nu as fragilidades; agora é preciso que haja um suplemento de gratuidade” refere, ao sublinhar as dificuldades que as paróquias, em particular, estão a enfrentar na Região.

“Quando nós vemos uma diocese deficitária, com paróquias pobres-  há paróquias que estão a pagar ainda as obras de recuperação do sismo e muitas outras cuja subsistência advinha das festas de Verão, que já não se realizam-  só podemos ver tempos difíceis. Mas também temos de perceber que o que está a acontecer na Igreja acontece também na sociedade, daí o valor da expressão  da amizade social”, adianta.

“Saibamos viver nas fragilidades e dificuldades que nos são colocadas. Isso constitui igualmente um desafio” remata a este propósito D. João Lavrador.

O prelado insular coloca a tónica no sentido de comunidade do povo açoriano.

“É curioso que, em momentos de catástrofes, as pessoas são generosas e solidárias; os açorianos, em particular, são generosos; agora cabe-nos a capacidade de provocar essa partilha” refere D. João Lavrador ao sublinhar que “ninguém deve tirar vantagem deste contexto”.

“ O outro tem de ser sempre o meu irmão; uns não podem ter tudo e outros não terem nada” referiu ainda o bispo de Angra.

“Sentimos que a pandemia ainda está para durar e isso exige de nós uma atenção muito especial e focada, pois podemos ter novos constrangimentos decorrentes da situação sanitária” salienta, ainda, alertando para os problemas económicos e sociais deste período de pandemia onde a perda de emprego e a pobreza “são já uma evidência”.

“Há sectores da sociedade e pessoas que vão sofrer muito mais com a crise e a Igreja será a única voz profética para estas pessoas” afirma sem antes criticar “algum discurso pouco claro” e medidas “que foram boas mas que só adiaram os problemas”, numa referência concreta, por exemplo, às moratórias.

“Foram uma boa opção, com certeza, mas agora é tempo de pagar e, na verdade, as pessoas continuam com problemas”.

Os bispos portugueses estiveram reunidos esta semana em Fátima para discutir, entre outros, os problemas resultantes da pandemia.

Na conferência de imprensa o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, manifestou a preocupação com a sustentabilidade das instituições particulares de solidariedade social (IPSS) na sequência da pandemia de covid-19, considerando que devem ter apoio logístico e financeiro do Ministério da Saúde.

No comunicado final da 200.ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que hoje terminou em Fátima, no concelho de Ourém, os bispos manifestam “a sua preocupação pela sustentabilidade das instituições de solidariedade social” e consideram que a pandemia “tornou evidente que, além do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, devem poder contar com o apoio logístico e financeiro do Ministério da Saúde”.

Aos jornalistas, o presidente da CEP, José Ornelas, explicou que esta situação se prende, sobretudo, com os lares, frisando que esta não é apenas uma questão das instituições da Igreja Católica.

“Estas instituições têm pessoas cada vez de maior idade, que são muitas vezes acometidas de enfermidades seja do foro psicológico” ou outras e “estas casas estão a tornar-se, praticamente, casas de cuidados paliativos e isso já exige um seguimento muito maior”, declarou.

Segundo José Ornelas, também bispo de Setúbal, foram relatados casos “em que chamadas a intervir as instituições sanitárias dizem ‘isso não nos compete a nós’”.

“E isto, particularmente no contexto da pandemia, sentiu-se muito concretamente. Procurou-se seguir as instruções das autoridades sanitárias, mas o apoio necessário depois que isso significou ficou muito aquém das necessidades acrescidas também de financiamento, não só de financiamento, mas de apoio”, referiu.

Para o presidente da CEP, “o enquadramento financeiro dos contributos que recebem do Estado não estão refletidos na evolução destas situações”.

“Esta é uma questão crucial para o futuro de uma correta assistência aos cuidados paliativos e continuados no contexto do país”, defendeu, notando que se o país quer que “estas pessoas tenham qualidade de vida dentro das condições de saúde em que se encontram”, então têm de ser repensados os custos.

“O que sentimos é o incomodo desta situação e isso é muito claro. Agora penso que isso passará, mesmo ao nível dos ministérios, de um alinhamento e uma articulação entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Segurança Social”, adiantou.