Por Carmo Rodeia

A pergunta é metafórica e se calhar nem faz muito sentido. Alguns dirão depende da pessoa mas o essencial é que avancemos devagar, cientes de que há um tempo para tudo e para todos, desde que saibamos geri-lo.

Vem isto a propósito da vida sobre-ocupada de cada um de nós. Do frenesim quotidiano a que nos submetemos, esquecendo-nos dos outros, e quantas vezes, de nós mesmos. Na alucinação do dia a dia há mesmo quem deseje que um dia tenha pelo menos 30 horas. Não sei se gostaria mas tenho a certeza de que o caminho não passa por essa vereda agitada, feita de exigências e de lamentos.

Regresso ao Pe Tolentino Mendonça. No ensaio sobre a amizade, “Nenhum Caminho Será Longo”, fala do desapontamento de um homem a quem Deus prometeu visitar. Ao crepúsculo o homem chora a desilusão da promessa não cumprida. Deus responde-lhe: “Por três vezes, hoje, tentei visitar-te e todas as vezes me disseste que não”.

É desta falta de tempo que falo. A gestão do tempo, deste tempo é uma aprendizagem que implicará muitas vezes livrarmo-nos daquilo que é acessório, mas sobretudo aceitarmos a nossa limitação, porque Deus manifesta-se nas pequenas coisas enquanto que nós, homens e mulheres, esperamos sempre que ele se manifeste na sua grandeza. E, de preferência sempre a nosso favor, e por isso, não são assim tão poucas as vezes em que pensamos que ele nos falta, quando na verdade nós é que ficamos aquém de nós próprios.

Aceitar que não atingimos todos os objetivos propostos; que a vida que temos é inacabada e cheia de imperfeições e que, amanhã, se calhar teremos de recomeçar tudo de novo é ter consciência da nossa condição e este pode ser o momento de viragem na nossa vida.

Christiane Singer, ensaísta e romancista francesa, num livro magnifico que se chama “Do Bom Uso das Crises” afirma o seguinte:  “Ao longo da minha vida, eu fui aprendendo isto, que nos acontecem as crises para evitar que nos sobrevenham coisas piores. E como exprimir o que é pior? O pior é ter tido a infelicidade de atravessar a vida sem perguntas e sem naufrágios, o pior é ter ficado à superfície das coisas e nunca ter acedido a uma outra dimensão”.

No caminho da vida, há passos fantásticos e momentos difíceis, em que nos sentimos sozinhos, áridos e sem alegria interior. Há momentos de uma enorme escuridão, em que as dificuldades se sobrepõem às coisas boas. Para ultrapassarmos isso precisamos de tempo, sobretudo de tempo para abrirmos o nosso coração, confiando.

Gosto particularmente de uma frase do Santo Agostinho: “ama e faz o que quiseres”, porque é o amor que nos estrutura. É nesse caminho que devemos procurar acertar o passo, mesmo avançando devagar…

Quantos passos precisamos de andar numa vida? Muitos certamente, mas todos os caminhos começam pelo primeiro passo.