Pelo padre José Júlio Rocha

“Às vezes elas merecem”, ladrou um macho, num almoço de tasca, quando se falava de violência sobre as mulheres. Isto exatamente na altura em que se celebrava o dia internacional da eliminação da violência contra as mulheres. Apeteceu-me usar de violência contra aquela boca, mas não o fiz por precaução, por cuidado, para não pagar com a mesma moeda.

A violência doméstica, sobretudo contra as mulheres, é um dos maiores flagelos do nosso país e da nossa região. É uma praga, um cancro, um vício tão arraigado que o vamos enfrentar e tentar destruir, sem sucesso, durante demasiado tempo. Tem raízes históricas, animalescas, jurássicas. É difícil eliminar um mal que se afundou nos alicerces da civilização humana.

Recordo uma história que alguém me contou, na primeira pessoa, sobre uma mulher, num dos muitos bairros sociais dos nossos Açores: essa pessoa visitou uma casa onde uma mulher, cravejada de nódoas negras, se queixava de que o seu marido lhe batia todos os dias. Disse-lhe que o abandonasse, que se separasse dele. A mulher respondeu: “mas ele está a bater no que é seu…” É essa cultura viciosa, de que as mulheres também não saem imunes, que tem, por força, de acabar. Como acabar? Como controlar a testosterona da agressividade incontrolável que leva os homens a descarregar o ódio intrínseco que carregam das suas frustrações sobre as submissas companheiras?

O oitavo capítulo do Evangelho segundo São João conta-nos uma história extraordinária: os eternos fariseus apanharam uma mulher em flagrante adultério. Decidiram, segundo uma lei perversa a que atribuíram a Moisés, matá-la à pedrada, como se usa ainda em alguns países de moral execrável. Mas tiveram uma ideia ainda mais genial: porque não aproveitar para entalar judicialmente Jesus juntamente com a mulher? A ideia era levar a mulher até Jesus e perguntar-lh’E se Ele concordava com a dogmática lei de matar as mulheres adúlteras. Se Ele não concordasse, estava condenado a tribunal, pois seria réu de desobediência à Lei. E eles tinham um grande trunfo na manga: sabiam, de antemão, que Jesus, pela sua divina Bondade, nunca aceitaria tal espécie de Lei. Nunca aceitaria obedecer a uma lei que matasse mulheres por adultério. Era demasiado misericordioso. E a misericórdia de Jesus seria a Sua própria condenação. Jesus haveria de morrer, como morreu, pela culpa da Sua justiça e bondade. Dois coelhos num só tiro: o apedrejamento da mulher e a condenação de Jesus. Que vitória!

Enfrentado com a inevitável pergunta, Jesus inclina-se para o chão, ao lado da mulher derrubada, mesmo ao lado dela, e começa a escrever no chão, como a dizer: se a vossa moral hipócrita vos mantêm de pé, desprezando esta mulher, Eu prefiro estar inclinado, ao lado dela. E faz uma das mais brutais sugestões da história humana: “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!” Silêncio. Consternação. Derrota. Um a um, deixando cair as pedras das mãos, foram abandonando o recinto, rabo entre as pedras, humilhados pela Verdade, os arrogantes fariseus. Ninguém saiu imune. Diante daquela mulher culpada e caída ninguém era inocente. Jesus viu-Se só diante da mulher: “Ninguém te condenou?” “Ninguém, Senhor”. “Também Eu não te condeno. Vai, não voltes a pecar”. É importante referir que o “não voltes a pecar” é muito menos incisivo do que o “também eu não te condeno”. Numa época em que as mulheres eram um pouco menos consideradas do que os animais e as coisas, Jesus é o maior revolucionário de todos os tempos em relação à dignidade da mulher. E morreu também por isso.

Costumo comparar a dignidade da mulher e do homem com um jogo de futebol em que a mulher é o guarda-redes e o homem o ponta de lança. O guarda-redes pode passar todo o jogo a fazer defesas incríveis, a impedir os golos dos adversários, a guardar dignamente a sua baliza. Se, no último minuto do jogo, levar um frango, toda a multidão cai em cima dele a culpá-lo da derrota. O ponta de lança pode levar todo o jogo a falhar infantilmente golos de baliza aberta. Se, no último minuto, marcar um golo de baliza aberta, é o herói do jogo.

As mulheres não podem falhar nunca: serão as vítimas de uma sociedade impiedosa e todos os dedos as condenarão. “Às vezes elas merecem”, ladra a nossa civilização. Trabalham o dobro, recebem metade. Lavam a louça e levam pancadaria. Pintam os lábios e são violadas… estavam a pedi-las. Usam minissaia e são apalpadas… não é isso que elas querem?

É muito mais fácil e aceitável trair uma mulher do que trair um homem.

As mulheres continuam a ser apedrejadas. E nós a aplaudir na bancada de um estádio chamado vergonha.

 

*Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio