Por Carmo Rodeia

Hesitei em escrever este Entrelinhas porque estamos em época de campanha eleitoral e não quero ser mal interpretada. Acresce que também não direi coisas muito diferentes daquelas que a esmagadora maioria das pessoas, que já se pronunciou sobre este assunto, disse. Ainda assim decidi arriscar.

António Guterres será o novo Secretário Geral da ONU depois de ter “limpo” todas as votações possíveis e necessárias para eleger o sucessor de Ban Ki- Moon.

E conseguiu-o por várias razões. Em primeiro lugar, por causa das qualidades pessoais e da campanha que promoveu, ancorada na competência com que exerceu as funções de alto-comissário para os refugiados; em segundo lugar, a imagem de Portugal no mundo; em terceiro lugar, a eficácia da diplomacia portuguesa que se empenhou muito nesta eleição.

Não admira por isso que, da esquerda à direita, todos se tenham congratulado com esta eleição lembrando que está mais do que demonstrada a sua competência nas várias missões que desempenhou quer em Portugal quer no estrangeiro.

Quando ficou garantida a sua eleição manifestou o lema do seu mandato: servir os que mais precisam.

A ideia de fazer o bem não é de agora. Lembro-me quando o entrevistei para a RTP Açores, em 1995,  ter-me dito que a sua grande ambição na vida era ajudar as pessoas. Aliás, julgo que o slogan “As pessoas primeiro” foi um dos seus motes, quer para a campanha interna quer para as eleições nacionais.

Mais do que o slogan ficam as ações que se alicerçam numa forma de estar na vida, mesmo na vida política,  na qual, especialmente, tem de haver valores e ética que todos apregoam mas muito poucos praticam.

A ONU, não tenho dúvidas que, apesar das dificuldades e constrangimentos do mundo atual, representa este grande desejo da humanidade, que hoje todos os dias é posto em causa.

A ordem mundial vive hoje sob sérias ameaças que não vêm só do terrorismo islâmico, ou do expansionismo russo ou, ainda, de uma subtil mas persistente afirmação da China, que se impõe pelo seu poderio económico e pelo seu gigantismo populacional. Igualmente grave é o crescimento de vozes isolacionistas e proteccionistas, algumas com uma cadência autoritária assustadora, no seio do próprio Ocidente, quase que renegando a abertura e a evolução alcançadas, como por exemplo nos Estados Unidos, de onde saem alguns esqueletos do armário que pensávamos estarem encerrados para sempre.

Neste contexto, é importante recordar e reafirmar os valores que presidiram à liderança ocidental após a II Guerra e após a queda do Muro de Berlim.

Um homem sozinho poderá mudar o mundo? Julgo que no atual contexto não… mas pode fazer a diferença e ser aquilo que falta a esta nossa existência: liderança, de preferência com valores…vou mais por aí.

Esta segunda feira em que se assinala o dia mundial contra a pena de morte o Papa Francisco, que todos os dias nos surpreende, colocou na sua conta do Twitter que “Nenhuma sentença é válida sem esperança”, a propósito da luta incansável a favor da abolição da pena de morte.

O papa Francisco e o ex primeiro ministro António Guterres são diferentes. Se calhar, não são comparáveis. Mas o barro que molda as suas intenções é feito da mesma terra. E isso sim, pode fazer a diferença. Sobretudo num mundo onde o outro pede sentido perante um eu omnipresente e arrogante. Não tinha de ser assim.