Pelo Pe Hélder Miranda Alexandre

Francisco chega dez minutos antes da hora marcada à Sinagoga de Roma, sem cortejo diplomático, no modesto ford focus. É recebido pelo presidente da comunidade hebraica da Urbe, pelo presidente das comunidades hebraicas italianas e pelo presidente da fundação Museu da Shoah. O objectivo é simples: a unidade tão almejada entre religiões irmãs. Afirma o Papa: “de um ponto de vista teológico, aparece claramente a inquebrantável ligação que une cristãos e hebreus. Os cristãos não podem não fazer referência às suas raízes hebraicas. A Shoah ensina que é preciso sempre máxima vigilância para se poder intervir tempestivamente em defesa da dignidade humana e da paz.”.

O Rabi Capo di Segni intervém e recorda o grande jubileu. O “Abri as portas da justiça”, palavras solenemente proferidas na abertura da porta deste ano santo, evocam a liturgia sálmica. “Para um judeu que escuta estas palavras é qualquer coisa de conhecido e familiar, é a citação dos versos dos salmos, que nós citamos na nossa liturgia festiva”. Atribui ao gesto da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma um sentido radicado na tradição rabínica jurídica, através de ato repetido três vezes pelos últimos Papas e que se torna chazaqà, costume fixo. Um sinal “de como as estradas divididas e muito diversas dos dois mundos religiosos partilham uma parte do património comum que ambos consideram sagrado”.

“A violência do homem sobre o homem, recorda o Papa, está em contradição com qualquer religião digna desse nome, e em particular com as grandes religiões monoteístas. Cada ser humano, enquanto criatura de Deus, é o nosso irmão, independentemente da sua origem ou da sua pertença religiosa.

No entanto, dois factos recentes parecem ferir esta unidade procurada, os atentados de Jakarta e do Burkina Faso. E parece que essa história não tem fim… Quais serão os próximos?

Em Jakarta, os atentados do Isis causaram 7 mortos e 26 feridos. A resposta da grande nação muçulmana foi uma imponente manifestação que condenou o extremismo e o terrorismo. Ao lado de dez mil muçulmanos desfilaram cerca de mil cristãos, que leram os grandes princípios da convivência nacional: a fé em Deus, a justiça e civilidade humana, a unidade da Indonésia, a democracia orientada pela sabedoria e a justiça social. O Jesuíta Alexius Andang Binawan, vigário geral da arquidiocese da capital, afirmou: “dissemos aos fiéis de não se deixarem vencer pelo medo do terrorismo. O povo indonesiano saberá responder unido, com dignidade e firmeza, sem medos”.

Em Ouagadougou, pelo menos 27 pessoas, de 18 nacionalidades diversas (entre as quais 1 português), morreram no assalto ao hotel Splendid e ao Café Capuccino na capital do Burkina Faso, perpetrado pela Al Quaeda do Magreb islâmico. Neste país as religiões islâmica, cristã e tradicional convivem pacificamente. No entanto, o Padre Philipe Zongo, da Comunidade de Santo Egídio, teme que este ataque possa minar esta convivência. Afirma que não se trata de um problema de religião. “O problema é o mal que ocorre na nossa sociedade”.

Até quando vai durar esse “mal”? A Igreja está a celebrar o oitavário de unidade pelos cristãos, mas uma leitura atenta dos sinais dos tempos prova como facilmente se instrumentaliza a religião. O problema é mais profundo e a religião é um álibi fácil de usar para se justificar outros males mais radicados, que passam essencialmente pela falta de justiça e de paz. “Abri as portas da justiça!” Não bastam as boas intenções, mas há que acreditar que é possível. Que o gesto do Papa Francisco sirva de incentivo, sobretudo nas nossas pequenas comunidades.