Por Carmo Rodeia

Regresso ao Papa Francisco. Muitos dirão: outra vez? Pois… é que o Papa acaba de fazer uma das visitas mais improváveis mas, simultaneamente, mais importantes do seu pontificado. Esteve em Myanmar e no Bangladesh. Dois países onde a minoria católica é mesmo muito minoritária. Mas, num continente onde o número de católicos mais tem crescido e onde há uma busca de Deus muito séria, comprovada pelas inúmeras missões ad gentes que vários movimentos de apostolado estão a realizar.

Só por ter feito esta leitura, o Papa deve merecer o nosso aplauso. Mas ele foi muito mais longe. Até na questão da minoria muçulmana cuja “limpeza étnica” parece estar em curso (as palavras não são minhas mas do alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados), soube ser coerente com o seu estilo ao jeito de um chefe de equipa numa qualquer urgência improvisada de um hospital de campanha: de forma serena mas incisiva, de cabeça fria, tratando de cuidar dos feridos graves sem perder a calma, a paciência e o sorriso, que muitas vezes vale tanto como dois analgésicos.

Durante a visita a Myanmar (de maioria budista), Francisco não se referiu ao grupo pelo nome nem abordou diretamente a crise no estado de Rakhine, de onde mais de 620.000 Rohingya fugiram nos últimos três meses para escaparem a perseguições. Como tinha sido pedido e acordado. Quando chegou ao Vaticano, disse que abordou a causa em privado, descrevendo também como chorou depois de se reunir com o grupo de refugiados. “Chorei. Tentei fazê-lo de uma forma que não fosse vista”, disse aos jornalistas. “Eles também choraram”, acrescentou.

Ninguém espera que o Papa com a sua presença ou com as suas palavras acabe com o que é impossível acabar de um dia para o outro. Mas, é importante salientar que o papa Francisco já nos mostrou como marca alguns pontos importantes, seja quando se trata da agenda ecológica, na questão do ecumenismo, seja na agenda social, no combate pela igualdade, combate contra a discriminação e contra a intolerância religiosa que, no tempo em que vivemos, toca na essência dos direitos humanos. O Papa tem estado na linha da frente dessas centenas de milhares, ou milhões de seres humanos esquecidos, cujo único crime é serem cristãos. E não só.

A experiência deste homem, que vem de um continente tão singular como é a América Latina, depois de passar por uma história violenta de ditaduras, de perseguições, revela um olhar e uma visão sobre os problemas do mundo que é absolutamente favorável, sem entrar na pequena política. Por outro lado, tem revelado coragem para falar sobre temas como a homossexualidade, o debate que há séculos atravessa a igreja sobre o sacerdócio, o casamento dos padres, o papel dos leigos na administração da vida religiosa… sempre de forma elevada. Ou seja, enquanto que nalgumas correntes conservadoras dominantes da Igreja Católica existe uma preocupação de afirmação de uma convicção doutrinal, na perspectiva da norma autoritária, o Papa tem em relação a todas estas questões uma palavra de abertura do assunto para discussão fraterna, de respeito por todos aqueles que são diferentes das grandes maiorias, a todos os níveis.

Por isso, é hoje a referência moral do mundo, para crentes e não crentes. Às vezes, fico com dúvidas sobre o que move verdadeiramente aqueles que dentro da nossa própria casa o contestam quando, afinal, a sua postura é tão semelhante à de Jesus de Nazaré.