Pelo Padre José Júlio Rocha

Lá estava ela, solene e inclinada como a torre de Pisa, apoiada no seu cavalete, grande, enorme para o tamanho da minha pequenez, roda da frente alçada, de lado, na tenda de meu pai. Era uma “Lambretta” dos anos cinquenta, já retro quando a conheci, idosa e magnânima.

A tenda de meu pai era um edifício simples e retangular, com teto de cimento, que funcionava como barbearia aos domingos, quando os homens da freguesia lá iam cortar o cabelo ou fazer a barba de uma semana. Tinha umas cadeiras de barbeiro em madeira do século XIX, do tempo em que meu bisavô cortava cabelos. Havia uns cintos de couro e umas pedras polidas, onde se afiavam as velhas navalhas de barbear, umas taças brancas onde moravam uns sabonetes cor-de-rosa, que serviam para esfregar velhos pincéis de pelo de porco para ensaboar a cara. E eu, rapazote de cinco ou seis anos, sentado naquele banco de império pintado a azul, ao lado dos velhos da freguesia, vestidos de calças de cotim, casaco preto, chapéu na cabeça e descalços, com uns pés sujos, arroxeados e calosos, que cuspiam para o chão e para o chão deitavam os restos dos cigarros de tabaco da terra ou folha e cabelo de milho. Ali, no meio da sala, campeava a velha “Lambretta”, a pingar óleo para o chão, em descanso de fim-de-semana.

Nos dias de semana levava meu pai para a Praia, para o trabalho na barbearia da Rua de Jesus, e estacionava naquele pequeno largo que cruza com a Rua da Graça, a pingar óleo também por ali. Era uma velha barcaça, não como estas minúsculas vespas ou lambretazinhas que vemos agora por aí. Vermelha e branca, o seu som cavo de mota solene chamava a atenção. Ao entardecer dos dias, depois da escola, jogávamos futebol no corredor da casa, para angústia de minha mãe. Uma das balizas era a porta da frente. A outra baliza era a porta da casa de banho. A bola era um amontoado de peúgas velhas e jogávamos de baliza a baliza. Às vezes o remate saía mais forte e fazia estrondo na porta, para regozijo do marcador do golo e queixas de minha mãe, que pouco podia contra a nossa gana infantil de jogar. O jogo só terminava quando, ao longe, ainda longe, ouvíamos o som da “Lambretta”, aquele turururu conhecido, que anunciava a chegada do patriarca, que, obviamente, não queria aqueles jogos em casa. Os vestígios da jogatana eram eliminados: bola escondida debaixo da cama do quarto de costura, suor limpo da testa, todos sentados na “chesse” (Chaise-longue), à espera do jantar, a ser servido naquela mesa branca, que outrora tivera arestas pontiagudas, mas que meu pai arredondara quando o Hernâni, um

dia, talvez com uns quatro anos, fizera um galo na testa a correr à volta dela. Adorávamos sopas de feijão, caldo temperado, molho de carne ou molho de feijão. O refilanço era a quatro vozes quando aparecia a sopa de carne ou de peixe. Ou a insuportável açorda que eu agora adoro.

Os melhores dias do verão eram os domingos à tarde, quando, depois do almoço, íamos tomar banho ao Porto Martins. Ficava a mãe em casa ou com a família, a cuidar dos dois mais pequenos. Eu e o Hernâni íamos a banhos com meu pai. Hernâni sentado atrás, agarrado ao dorso do pai, eu à frente, em pé, segurado pelos joelhos de meu pai, agarrado, com ele, ao volante. Ficava caricato com o capacete branco com uma tira à Boavista à volta, grande demais para a minha cabeça, amarrado ao pescoço com um cinto de fivela. Era uma aventura de três quilómetros, a apanhar com o vento e com as moscas na cara, a trinta quilómetros à hora, velocidade estonteante, até chegarmos à velha piscina a cheirar intensamente a mar e a algas. E meu pai nadava até ao fim da piscina, enquanto nós nos entretínhamos com a água pelos joelhos, a tentar apanhar os peixinhos que fugiam sempre.

Um dia, o Hernâni quis fazer uma aventura: levantou o cavalete da “Lambretta” mas não teve forças para segurar o seu peso, e ela caiu, como uma árvore, lentamente, em cima dele. Valeu que o pai estava por perto e nada de grave aconteceu senão o choro do meu irmão.

A meados dos anos setenta, a “Lambretta” foi a consertar. E regressou de cara lavada, desta vez pintada a azul e branco, por razões óbvias. Era essa velha moto que me levava, sete e meia da manhã, freguesia abaixo, até à Canada dos Picos, para tratar da mais delicada vaca que esta ilha conheceu, a minha querida Calçada. Parti para o seminário e a velha moto continuou os seus périplos. As últimas aventuras da “Lambretta” são de sofrimento para ela. Ficou uns anos inutilizada porque, em meados dos anos oitenta, chegou a casa o primeiro automóvel da família. A “Lambretta” já não servia para nada, cada vez mais velha, cada vez a pingar mais óleo como quem chora, cada vez mais curvada na sua velhice infeliz, a criar rugas de ferrugem, como que a calar a sua inútil solidão. Quem deu alguma vida à sua velhice foi o meu irmão mais novo, Duarte, o Rebelde, que, aos treze ou catorze anos, à revelia do meu pai, pegava nela e acelerava-a na Canada do Engenho, nossa rua, puxando-a ao máximo e fazendo peões com ela. A pobre “Lambretta”, esbaforida, respondia com esforço e dedicação, mas o Duarte quase rebentava com ela.

Foi vendida a alguém e desapareceu para sempre da história da nossa família. Provavelmente morreu numa sucata, comida pela velhice, e, como sempre, sem a gratidão daqueles a quem deu a vida. É triste a forma como as coisas, os animais e as pessoas acabam os seus dias.

“Vem dar uma voltinha na minha lambreta”, canta António Zambujo, pedindo à amada que não pense no tal Vilela, que tem carro e barco à vela.

Enquanto éramos pobres, ela foi o nosso tudo. Depois comprámos um carro… é sempre assim.

*Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio