Pelo padre José Júlio Rocha

Deve ter sido em 1977, andava eu na segunda classe, na escola velha da Fonte do Bastardo. Era um miúdo calmo e sossegado, tímido e sem muita vontade de andar à bulha com a malta da turma. Contentava-me, nos intervalos, com examinar os mapas salazarentos que se estendiam pelas paredes da sala de aula, ler livros infantojuvenis de aventuras ou de histórias reais, ou então passear sozinho no pátio da escola, embrulhado na minha fértil imaginação.

Num desses intervalos, estava eu a apanhar o sol da primavera, sentado no chão de cimento, pernas estendidas, manso e calado, entretido a pensar. O resto da criançada brincava, barulhenta, no pátio, não me lembro que jogo jogavam, só me recordo dos gritos e correrias alegres, dos rapazes atrás das raparigas e elas a fugir, e eu alheio, sonhador e distraído.

A um dado momento, uma rapariga, na corrida, tropeça nas minhas pernas e mergulha no cimento, estatelada e a chorar: tinha feito um galo na cabeça e algumas escoriações nas mãos. Foi dramaticamente levada em braços para a sala, onde lhe trataram das feridas. Não parava de chorar. Também fui levado à presença da professora, agarrado por dois colegas, enquanto todos me lançavam as culpas do acidente. Armou-se um julgamento. Eu, de pé, diante dos outros e ao lado da professora. Do outro lado, outra rapariga explicava à professora o que tinha acontecido. Fiquei com as culpas em cima de mim. Todos concordavam que eu não devia estar sentado naquele lugar, que não queria brincar com eles, e a rapariga a chorar, a chorar. Fiquei de rastos. Tive vontade de fazer chichi nas calças, nunca tinha sentido, tão forte, a culpa de um crime cometido sem querer. Tinha magoado uma colega e devia pagar, na praça pública, o meu pecado. Não abri a boca, não chorei, não ripostei. Fiquei para ali, a apanhar com as acusações, os dedos apontados, porque há de haver sempre alguém que pague por aquilo que corre mal. Pedi desculpas publicamente, declarei-me irremediavelmente culpado. Fui, em suma, o bode expiatório.

A ideia de “bode expiatório” aparece no terceiro livro da Bíblia, o Levítico, capítulo 16. Aí se contam os rituais do grande dia da Expiação. Um deles consistia em trazer à presença do povo um bode, sobre o qual se lançavam todos os pecados e iniquidades do povo. O bode era então enxotado para o deserto, onde iria morrer de sol de sede, levando consigo os pecados da comunidade, e o povo ficava livre dos seus pecados.

O incontornável Nietzsche considerava o Cristianismo como uma religião de bodes expiatórios. Para ele, a essência dessa religião estava no facto de que o homem tinha matado Deus, crucificando-o. A morte de Jesus e, portanto, a morte de Deus seria a marca da culpa cristã: uma culpa contra Deus? Como é que podemos suportar o facto de termos morto Jesus? Numa religião castradora, os fiéis são culpados para sempre e para sempre viverão nesse terror de pagar, todos os dias, a eterna dívida ao sádico Deus cristão.

Exageros nietzschianos à parte, o certo é que nós adquirimos o hábito de cultivar a culpa, que não é a mesma coisa que a responsabilidade. Quando alguma coisa corre mal, alguém tem que pagar. Isto na vida política, no futebol, nas teorias da conspiração e, sobretudo, na vida do dia-a-dia.

Freud considerava que os sentimentos de culpa eram devidos ao ancestral assassínio do pai, que ele ilustrava com o complexo de Édipo, e que ainda hoje se experimenta, nas sociedades patriarcais. O que é facto é que quase todos nós, uns mais outros menos, sentimos o peso da culpa por pecados que não cometemos, e tudo isso se pode tornar tão doentio até descambar em casos de baixa autoestima ou depressão.

O extremo oposto é, evidentemente, não ter culpa de nada e as favas serem sempre pagas pelos outros. Chega a ser confrangedor o que vemos na política, na justiça, até no futebol. É difícil encontrar alguém que assuma responsabilidades políticas, judiciais, desportivas, etc. É a lei do bode expiatório a ditar a sua força.

Para não falar dos casos de Portugal, passo a citar o caso abundantemente claríssimo de Donald Trump, o nunca morto e tragicamente caricato ex-presidente dos EUA. O homem que conseguiu o invejável recorde de trinta mil mentiras em quatro anos nunca teve culpa de nada. As notícias sobre os seus abusos eram sempre culpa dos jornalistas mentirosos; a violência que ele incentivou foi sempre culpa dos negros, dos muçulmanos dos imigrantes; a desastrosa gestão da pandemia foi sempre culpa dos governadores dos estados; a derrota nas eleições foi a maior fraude da história dos EUA, perpetrada pelos democratas, ou então pelos seus aliados republicanos, desleais e vendidos; mandou invadir a Colina do Capitólio, num dos mais tristes e significativos crimes da história do seu país, e nunca assumiu a responsabilidade. Donald Trump foi um caso medonho de inimputabilidade, um caso patológico de irresponsabilidade infantil no cargo de homem mais poderoso do mundo. E ainda tem, como Hitler ou Estaline tiveram, uma onda de seguidores apaixonados e irreversíveis, para quem a boca do energúmeno é mais sagrada do que as profecias da Bíblia. E enquanto ele continua a dividir a América como nunca desde a Guerra Civil, quem tem dois dedos de testa ainda se pergunta como é possível tal fenómeno no século da superinformação.

Goebbels suicidou-se e matou os seus seis filhos com veneno porque a vida não era possível depois de Hitler. Quando se é fanático, a evidência da verdade é muito menos importante do que a mentira, porque ela nos dá razão. O que é preciso é acreditar nalguma coisa ou em alguém que nos tire o medo e dê vazão às nossas frustrações. E então entrega-se a alma a quem tem sempre razão e nunca tem culpa.

E tudo isso começa num lugar chamado família, onde não se devia educar para a culpa nem para a impunidade. Onde se devia educar para a responsabilidade.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.