O lugar da voz da mulher na sociedade visto nas perspetivas da história, da religião e da literatura

Conferência organizada pelo grupo da disciplina de português da Escola Secundária Domingos Rebelo contou ainda com três testemunhos na primeira pessoa

Foto: Mesa de oradores na sessão sobre “Papel da Mulher na Sociedade”/IA/CR

A Escola Secundária Domingos Rebelo, em Ponta Delgada, recebeu esta manhã uma conferência sobre “As Mulheres na Sociedade: Diferentes Abordagens”, promovida pelo grupo da disciplina de Português da escola, em parceria com o Instituto Católico de Cultura da Diocese de Angra. Estiveram em análise várias perspetivas histórica, religiosa e cultural que permitiram perceber a forma como a mulher se posicionou na sociedade e a forma como foi olhada ao longo dos tempos.

Um dos três oradores foi o cónego Adriano Borges que refletiu a perspetiva revolucionária com que Jesus olhou a mulher, rompendo com a tradição religiosa e cultural do seu tempo, como é evidente na Bíblia. O presbítero, formado em História da Igreja e atualmente pároco na Igreja Matriz de São Sebastião em Ponta Delgada,  sublinhou que  “desde sempre, no Cristianismo,  a mulher foi considerada semelhante ao homem” embora, na sociedade da época “fosse vista como propriedade do homem de quem tinha de receber sempre a proteção de um homem, primeiro do pai,  depois do marido ou do filho” sob pena de ser proscrita.

“Jesus trouxe uma ruptura profunda na forma de olhar a mulher”, afirmou lembrando alguns trechos do Evangelho como o “toque de Jesus” nalgumas mulheres como a sogra de Pedro ou a hemorroíssa;  o diálogo de Jesus com a mulher adúltera ou com aqueles que consigo se altercaram quando a prostituta lhe lavou os pés com o “perfume das suas lágrimas”, para afirmar que Jesus, no seu contexto, deu-lhe uma dignidade diferente.

Já a historiadora Susana Serpa Silva evidenciou o apagamento feminino ao longo dos séculos, até à idade moderna, afirmando que “as mulheres fizeram parte dos silêncios da história, que durante muito tempo não lhes deu visibilidade”. Explicou que, durante longos períodos, “a mulher foi atirada para a esfera privada”, situação que começou a mudar com os movimentos feministas: “no século XVIII surgem os primeiros movimentos e no século XIX ganham força com a Revolução Industrial”. Acrescentou ainda que “hoje as mulheres são uma parte significativa da sociedade e não faz sentido que continuem preteridas”, alertando para desafios atuais como “a desigualdade salarial, a violência doméstica e a necessidade de maior participação política”.

Na área da literatura, Ana Cristina Gil recordou as dificuldades enfrentadas pelas escritoras: “as mulheres não tinham espaço na literatura, não eram levadas a sério e muitas adotaram pseudónimos”. Destacou exemplos como Irene Lisboa, que publicou com o pseudónimo João Falco, e referiu a importância das “Novas Cartas Portuguesas”, das três Marias – Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa- que foi um livro fundamental para perceber a forma como as mulheres eram tratadas no Estado Novo.

“O percurso foi lento, mas hoje há uma maior igualdade”, disse  sublinhando que a “questão do género não pode ser uma competição: cada um tem o seu lugar na vida e o que é fundamental é que cada lugar seja respeitado”.

Além dos três oradores usaram ainda da palavra três mulheres que deram testemunho do seu pioneirismo no desempenho de determinados papeis na sociedade: a primeira reitora da universidade dos Açores, Susana Mira Leal; a primeira comandante do comando territorial da GNR nos Açores, coronel Cláudia Margarida dos Santos e a primeira diretora do jornal Açoriano Oriental, Paula Gouveia. As três reforçaram a ideia de que o caminho da igualdade está a ser construído, mas ainda exige continuidade, compromisso e ação coletiva.

O diretor do Instituto Católico de Cultura, monsenhor José Medeiros Constância sublinhou o papel do Instituto no diálogo entre a fé e a cultura, nas várias dimensões que hoje se colocam, seja na perspetiva histórica seja na perspetiva inter-religiosa, destacando que a mulher na Igreja começa também a encontrar o seu espaço e a presidente da Assembleia da Escola Secundária Domingos Rebelo que destacou o papel da educação e da formação na promoção da igualdade de género.

 

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