Mariana Candeias: “Todas as mães são mães desde que sejam de alma e coração”

Uma conversa para ouvir na integra no dia em que termina a Semana da Vida, este domingo depois do meio dia na Antena 1 Açores e no rádio Clube de Angra ou aqui no sítio Igreja Açores, em podcast

Foto: Igreja Açores

Entre biberões, noites curtas e muitas estratégias para vencer as limitações físicas, Mariana Candeias vive uma das fases mais intensas da sua vida. Aos 33 anos, mãe dos gémeos Alice e Santiago, de nove meses, assume-se como uma mulher “igual a tantas outras”, embora reconheça que a sociedade ainda olha para a deficiência com filtros e preconceitos.

Nascida no Faial, criada na Terceira e atualmente a viver em São Miguel, Mariana é o retrato de quem aprendeu desde cedo a adaptar-se às circunstâncias sem desistir dos sonhos. Tem uma doença congénita que lhe provoca limitações físicas desde a infância, mas isso nunca a impediu de estudar, escrever ou construir uma família.

Licenciada em Ciências Sociais, Política e Administração pela Universidade Aberta, ficou também a apenas três cadeiras de concluir a licenciatura em Comunicação e Cultura na Universidade dos Açores, curso que acabou por encerrar antes de o conseguir terminar. Ainda assim, mantém vivo o desejo de trabalhar na comunicação social, sobretudo na escrita, reportagem e crónica de opinião.

“Tudo o que eu sentia era despejado num papel”, recorda. “Eu perguntava-me: o que posso fazer para escrever todos os dias e ganhar dinheiro com isso?”

Foi precisamente esse sonho de ser jornalista que a trouxe da Terceira para São Miguel. Hoje, apesar da maternidade exigir grande parte do seu tempo, continua a escrever textos autobiográficos e reflexões pessoais. O sonho de publicar um livro permanece intacto.

“Tem de ser um livro que acrescente alguma coisa às prateleiras”, afirma a sorrir, como acontece em vários momentos da conversa com o Sítio Igreja Açores, que pode ser ouvida na integra no próximo domingo, a partir do meio dia.

A chegada de Alice e Santiago concretizou um sonho antigo do casal, formado na Universidade dos Açores, durante o curso. Depois de uma gravidez interrompida anteriormente, a segunda gestação foi vivida com ansiedade acrescida.

“Por mais noites mal dormidas que houvesse depois, eu estava a viver aquilo com que tinha sonhado”, conta.

Mariana  Candeias descreve a maternidade  e a construção da família como uma experiência profundamente feliz, mas também exigente. Sobretudo porque, além dos desafios normais de criar dois bebés ao mesmo tempo, teve de encontrar novas formas de lidar com as limitações físicas do próprio corpo.

“Aprendi desde cedo a perguntar-me: se não consigo fazer isto de uma forma, como é que vou conseguir fazê-lo de outra?”

A maternidade obrigou-a a reinventar rotinas, movimentos e estratégias. Mas também reforçou a importância da rede de apoio: do companheiro, da família e dos amigos.

“É preciso uma aldeia para criar uma criança. Para criar duas, talvez seja preciso uma aldeia inteira”, brinca.

Sobre o companheiro, destaca a partilha real das responsabilidades parentais, algo que considera essencial no equilíbrio familiar.

Ao longo da conversa, Mariana recusa o rótulo de “heroína” ou “exemplo de coragem”. Considera que todas as pessoas enfrentam limitações, algumas apenas menos visíveis do que outras.

“O problema não está na cadeira. O problema é perguntar: onde estão as acessibilidades?”

Para Mariana, a deficiência física continua a ser excessivamente associada à incapacidade, quando muitas vezes as maiores barreiras são sociais e estruturais. Defende uma sociedade mais preparada para incluir, sem paternalismo nem discriminação.

“Há pessoas com limitações emocionais, económicas, familiares, cognitivas… As minhas são apenas mais visíveis.”

A jovem mãe admite que pensa frequentemente no futuro dos filhos e na forma como eles poderão lidar com o olhar dos outros sobre a deficiência da mãe. Mais do que proteção, deseja dar-lhes ferramentas emocionais.

“Gostava que crescessem a perceber que todas as mães são mães desde que sejam de alma e coração.”

Apesar da rotina intensa com dois bebés, Mariana continua a alimentar projetos pessoais. Além do desejo de escrever um livro, fala com humor de outro objetivo ainda por cumprir: plantar uma árvore.

“Não sou muito boa a cuidar de plantas, mas pode ser que a árvore ainda apareça”, diz entre risos.

A entrevista completa com Mariana Candeias pode ser ouvida no programa “Igreja Açores”, emitido neste domingo, data em que termina a Semana da Vida e em que a Igreja celebra o Dia Mundial das Comunicações Sociais.

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