Pelo Padre José Júlio Rocha

«Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado». Começa assim, cortante, um dos mais extraordinários livros que li nos últimos anos. Trata-se de “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, do consagrado Javier Cercas, um dos luminares da literatura em língua espanhola da atualidade.
Em maio de 2023 Javier recebeu um convite estranho: estava na feira do livro de Turim quando Lorenzo Fazzini, diretor da “Libreria Editrice Vaticana”, lhe sugeriu fazer uma viagem com o Papa Francisco, no fim de agosto desse ano, à Mongólia. Ser-lhe-ia concedida a liberdade de entrevistar quem quisesse nos corredores do Vaticano e na própria viagem e, se calhar, quem sabe, falar com o próprio Papa. Javier olhou para Fazzini… não era uma piada. e respondeu: «Mas vocês estão loucos ou quê? Não sabem que eu sou um tipo perigoso?»
Mas não resistiu a um convite tão único na história como aquele: o Vaticano convidava um ateu anticlerical para falar com quem quisesse no Vaticano e para escrever o que quisesse no livro, que era a única condição que Fazzini lhe tinha ordenado: escrever, no fim, um livro. Era um risco elevado. Portanto, avante.
Na cabeça de Javier Cercas emoldurou-se, em pouco tempo, um romance: uma das maiores perguntas da história da humanidade – a vida depois da morte – seria o enigma da novela. Então Cercas congeminou: um louco sem Deus (ele) iria perseguir o louco de Deus (o Papa Francisco) até ao fim do mundo (Mongólia) para lhe fazer a pergunta fundamental, a pergunta que qualquer criança faria, porque as perguntas das crianças sãos as fundamentais: «é verdade que minha mãe, quando morrer, vai ver, na vida eterna, meu pai e abraçá-lo, como ela diz sempre?» Javier queria uma resposta, em primeira mão, da boca do Papa. E isso levou-o até à Mongólia.
A saga de Javier Cercas nessa viagem assemelha-se à de um transeunte qualquer que, de fora da catedral de León, em Espanha – uma catedral humildemente gótica – decide, quase contra vontade, entrar em mais uma igreja. Não sabe que o esperam lá dentro dos mais belos vitrais do mundo e fica estupefacto: por dentro, a igreja era bem mais bela do que por fora. Para isso Javier Cercas decidiu libertar-se dos preconceitos que ele – laico e republicano espanhol, com toda a veemência que essa realidade queira dizer – tinha contra a Igreja. Iria ver o Vaticano por dentro com uns olhos de menino curioso, nada mais. E conseguiu-o de uma forma extraordinária.
Cercas perdeu a fé aos 14 anos, depois de ler uma novela de Unamuno que contava a história de um bom padre que perdeu a fé em Deus, mas, por compaixão para com o seu povo, continuou a pastoreá-lo como se tivesse fé. A partir desse tempo, Javier Cercas viveu a angústia do ateísmo, compensando-a com a literatura, o que, segundo ele, não foi o melhor caminho, porque a literatura dá mais perguntas do que respostas.
O que daí resulta é um romance, ou novela, não ficcional: romance porque tem um enigma, revelado no final, e alguém que o quer resolver. Não ficcional porque tudo é real e aconteceu. É também, e sobretudo, o olhar de alguém, verdadeiramente sábio, que olha de fora, com um olhar sereno e penetrante, a realidade da Igreja atual. Por isso, é de leitura obrigatória. Baste dizer que, em Portugal, o livro foi lançado em outubro de 2025. Hoje, cinco meses depois, já vai na sexta edição.
Na próxima crónica, continuarei a falar da beleza deste livro.