Cerca de 90 crianças finalistas do Jardim de Infância, 4º e 6ºs anos do Colégio de São Francisco Xavier peregrinaram até ao Santuário do Senhor Santo Cristo com uma paragem na Igreja de São José

Na manhã desta sexta-feira, o ritmo habitual das ruas de Ponta Delgada foi sendo suavemente interrompido por cânticos, passos ritmados e vozes ainda pequenas, mas carregadas de significado. A 35.ª romaria do Colégio de São Francisco Xavier voltou a descer à cidade, renovando uma tradição que, mais do que se repetir, se reinventa em cada ano e em cada geração.
São crianças – 94, rapazes e raparigas – mas caminham como gente grande. Levam lenços, terços, intenções e, sobretudo, uma fé que ainda aprende a dizer o mundo. Entre elas seguem também as meninas, compondo um quadro que imita a vida: comunidade, família e partilha.
“Esta romaria nasce com um propósito muito claro: perpetuar a tradição”, explica a irmã Domingas Lisboa, diretora do Colégio, com a serenidade de quem já viu muitas destas caminhadas.
“Queremos que os mais pequenos cresçam com esta riqueza que é tão nossa. Começamos cedo, para que nunca se perca.”
O percurso faz-se de paragens que são também encontros. A passagem pela Ermida do Desterro e depois a Igreja de São José marcam os primeiros dois recolhimentos, antes da chegada ao Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, o coração espiritual da caminhada.
Primeiro, a Eucaristia. Depois, o coro baixo, junto à imagem do Senhor Santo Cristo, onde o tempo abranda. As crianças rezam. Algumas em silêncio, outras em sussurro.
Na homilia, feita pelo reitor, cónego Manuel Carlos Alves, uma mensagem ecoa para além das paredes do santuário.
“É uma alegria estar convosco”, começa por dizer o reitor, olhando para os pequenos romeiros.
“Nossa Senhora é mãe, protege-nos. E aqui é invocada como Senhora da Esperança.”
A reflexão segue por caminhos simples, quase como quem fala ao coração: “O que é ser cego? É não ver nada. Mas há quem veja e não reconheça Jesus.” E depois um convite: “Procurem ver e entender Jesus nas suas palavras.”
Num mundo marcado por conflitos e inquietações, a mensagem torna-se ainda mais direta: “Vemos guerras e tantas coisas más… e isso magoa-nos. Jesus deu-nos a receita: ‘amai-vos uns aos outros’. Nunca fazermos mal a quem amamos. Então, não façamos mal uns aos outros”, concluiu o responsável pelo Santuário que presidiu à celebração na qual participaram as crianças e as famílias.
Para a irmã Domingas Lisboa esta caminhada é também uma escola de vida.
“Somos um colégio católico, com um carisma muito próprio. Trabalhamos valores como o respeito, o amor, a partilha… mas também a interioridade. Hoje vive-se muito por fora, e nós queremos ajudar estas crianças a crescer por dentro.”
E há um detalhe que torna tudo mais humano: no final, depois da oração, há lanche. Mas não é apenas comida; é encontro.
“Eles partilham com a família. É um momento bonito, de união. Quase como se fosse o dia da família”, descreve já no Campo de São Francisco.
Este ano, a romaria ganha ainda um significado especial com o jubileu dos 75 anos da beatificação de Ana Maria Javouhey, fundadora da congregação de São José de Cluny. Um tempo de graça que, segundo a religiosa, tem sido vivido com intensidade, entre oração e testemunhos.
“A nossa missão continua a fazer sentido”, afirma. “Talvez não se veja logo, mas está lá. Em cada criança, em cada gesto. Sem esta presença, a cidade de Ponta Delgada ficaria mais pobre”, remata ciente do que a Congregação já deu aos Açores no santuário do senhor Cristo, no Lar da Mãe de Deus ou no Hospital em Angra do Heroísmo. Agora a congregação está apenas em Ponta Delgada no Colégio de São Francisco Xavier.
E talvez seja isso que melhor define esta romaria: pequenos passos que não fazem barulho, mas deixam marca. Como uma oração dita em voz baixa. Como uma tradição que se recusa a desaparecer.








