A família fragilizada, o aumento dos idosos em solidão e a situação dos sem-abrigo foram colocados pelo bispo de Angra no topo das prioridades pastorais para a cidade

No encontro Ca´fé na Sé, realizado esta sexta-feira, D. Armando Esteves Domingues traçou um retrato social exigente de Angra do Heroísmo e desafiou a Igreja a sair das estruturas tradicionais para responder, em rede, às novas periferias urbanas, defendendo uma ação mais missionária, sinodal e próxima dos mais frágeis.
Partindo da pergunta “O que precisa a cidade de nós?”, o prelado sublinhou que a Igreja deve deixar de se ver como “centro” e assumir-se como fermento discreto ao serviço do bem comum, em articulação com outras instituições e com toda a comunidade.
A reflexão partiu da convicção de que a cidade não pode ser vista apenas como destinatária da ação pastoral.
“Seria um risco olhar para a cidade e as pessoas como meros destinatários da nossa ação pastoral, sem pensar no que ela dá a todos”, afirmou, alertando para o perigo de a Igreja se fechar sobre si própria e de substituir “Deus e a ação do Espírito Santo na história”.
Na sua intervenção, o bispo de Angra destacou que a Igreja “faz parte do Reino, mas não o esgota”, convidando os presentes a reconhecer e valorizar “cada dinamismo, grupo e instituição ao serviço do bem comum”. A imagem deixada foi a de uma Igreja que, na cidade, é chamada a “servir evangelicamente, sem querer ser importante ou ter poder, a ser fermento e não massa”.
Evocando a identidade histórica e espiritual da cidade, o prelado recordou a sua forte marca cristã, visível no património, nos monumentos e na memória coletiva. Contudo, advertiu que essa herança não pode ficar cristalizada.
“Vivemos numa bela e corajosa cidade (…) com uma marca cultural cristã muito elevada que não podemos deixar transformar em peças de museu”, afirmou, lembrando que a presença da Igreja sempre foi “estruturante” e não apenas lateral.
Nesse sentido, deixou um primeiro desafio concreto: tudo o que a Igreja faz no espaço público deve ser feito com qualidade e sentido de serviço, desde a formação e catequese às celebrações litúrgicas, procissões e ação caritativa.
Um dos pontos centrais da reflexão incidiu sobre a organização paroquial em meio urbano. O bispo considerou que a cidade continua “demasiado organizada em paróquias geográficas” e pouco aberta a uma lógica de colaboração. Ainda assim, reforçou que a paróquia continua a ser decisiva, desde que entre num verdadeiro “processo de conversão missionária e sinodal”.
Inspirado na Evangelii Gaudium, defendeu que a paróquia não pode ser um simples “balcão de serviços religiosos”, mas antes uma comunidade viva de discípulos missionários, capazes de trabalhar em rede, numa lógica de corresponsabilidade entre leigos, diáconos, consagrados e presbíteros. Uma necessidade ainda mais premente diante de contextos urbanos marcados pelo anonimato, individualismo e fragmentação.
Inspirado na imagem da Igreja como “hospital de campanha”, insistiu na necessidade de proximidade às periferias humanas: famílias desfeitas, dependências, idosos sós, sem-abrigo, migrantes e jovens sem horizonte.
A prioridade, explicou, deve passar da mera conservação de estruturas para uma pastoral de encontro: visitas, pequenos grupos, presença em escolas, associações e redes sociais, bem como uma diaconia transformadora em articulação com outras entidades.
A família foi identificada como a prioridade mais premente, num contexto marcado pela quebra da natalidade, menos casamentos formais e níveis elevados de divórcio. O bispo alertou para a fragilidade crescente do tecido familiar e defendeu um reforço da pastoral matrimonial e do acompanhamento dos casais, bem como maior atenção às famílias feridas e aos jovens confrontados com dificuldades de habitação e estabilidade.
Logo depois, destacou o rápido envelhecimento da população e o crescimento da solidão entre os idosos, apontando esta realidade como uma das feridas mais silenciosas da cidade. A resposta, disse, exige uma Igreja de proximidade, com visitadores, ministros extraordinários da comunhão, grupos de convívio e redes paroquiais capazes de acompanhar quem vive sozinho.
A situação das pessoas sem-abrigo surgiu como a terceira grande urgência, a par de outras periferias como a população prisional, os dependentes e os migrantes. O bispo apelou a uma resposta articulada entre paróquias, Cáritas, misericórdias, IPSS e autarquias, reforçando o trabalho em rede para combater a exclusão social.
Num plano mais estratégico, o prelado apontou ainda a necessidade de abrir novos espaços de evangelização, capazes de chegar também a não crentes e pessoas de outras religiões, através do património, da cultura e da caridade. Igrejas abertas, visitas guiadas, voluntariado, valorização da memória franciscana e projetos comuns nas áreas das migrações e da ecologia humana foram algumas das pistas deixadas.
A concluir, deixou três ideias base essenciais para a construção da cidade: fortalecer laços de solidariedade, integrar os pobres na vida da Igreja e promover uma cultura de amor social.
“Quanto mais amor circulante vivermos, mais Igreja e mais Deus se tornará visível na cidade”, afirmou.
Esta iniciativa do Conselho Pastoral da Paróquia da Sé para “uma melhor vivência da Quaresma” passou pela realização de três encontros previstos embora só dois se tenham efetivamente realizado. Há uma semana atrás foi refletido o papel do património cristão na cidade e na forma como os cristãos se dizem.


