Cónego açoriano do Santo Sepulcro, padre Jacinto Bento, junta a sua voz à indignação e condenação dos atos ocorridos este domingo em Jerusalém

A detenção do cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, e do Custódio da Terra Santa, no passado Domingo de Ramos, em Jerusalém, está a gerar forte indignação internacional e foi classificada pelo cónego açoriano do santo Sepulcro como um episódio de “extrema gravidade” que configura um caso “de clara violação da liberdade religiosa e de culto”.
Em declarações ao Sítio Igreja Açores, o cónego Jacinto Bento sublinha que “o que aconteceu em Jerusalém no passado Domingo de Ramos não é um incidente menor, nem pode ser relativizado à luz das circunstâncias atuais”, destacando o impacto simbólico do sucedido muito para além da região.
Os dois responsáveis da Igreja Católica foram impedidos de chegar à Basílica do Santo Sepulcro para presidir às celebrações, numa situação que Jacinto Bento considera inédita: “pela primeira vez em séculos, os responsáveis máximos da Igreja foram impedidos de celebrar […] num dos dias mais importantes do calendário cristão”.
O cónego, que participou nas celebrações da Semana Santa em Jerusalém em 2025, refere que já então eram visíveis sinais de tensão, como “procissões perturbadas, atitudes hostis, uma presença de segurança frequentemente insuficiente”. Ainda assim, alerta que o episódio recente representa “um salto qualitativo preocupante”, mesmo tendo em conta o contexto de conflito no Médio Oriente.
Apesar de, após pressão internacional, as autoridades israelitas terem recuado e admitido que o Patriarca poderia “realizar serviços religiosos como desejar”, o sacerdote açoriano que foi durante largos anos o único guia português permanente autorizado e acreditado pelo Santo Sepulcro, afirma que tal não apaga a gravidade do ocorrido, antes “evidencia a inconsistência da decisão inicial”.
Nas declarações a pedido do Sítio Igreja Açores, o presbítero chama ainda a atenção para um contexto mais amplo de crescente pressão sobre comunidades cristãs na Cisjordânia, onde se multiplicam relatos de “ameaças, violência, destruição de bens e ataques a propriedades e instituições religiosas”, nomeadamente em Belém, Taybeh e Beit Sahour.
Perante este cenário, o cónego Jacinto Bento levanta uma questão central: “até que ponto está efetivamente garantida a liberdade religiosa na Terra Santa?”. Critica ainda o desrespeito pelo “status quo” dos lugares santos, estabelecido em 1852, considerando-o essencial para o equilíbrio entre comunidades religiosas.
O caso motivou reações internacionais, incluindo de Portugal, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, que condenou o incidente.
“Jerusalém não é apenas um ponto no mapa”, diz o cónego Jacinto Bento, lembrando que impedir o acesso ao Santo Sepulcro num momento central da fé cristã constitui “um sinal perturbador” que, mesmo corrigido, “não pode ser ignorado”.