D. Armando Esteves Domingues presidiu a uma missa com os presbíteros da ilha de São Miguel que realizaram a renovação das suas promessas sacerdotais

Esta segunda-feira, a Igreja Matriz de São Sebastião acolheu a celebração presidida pelo Bispo de Angra, na qual os sacerdotes da ilha de São Miguel renovaram as suas promessas sacerdotais, e deixou um forte apelo à renovação interior do ministério sacerdotal, advertindo contra os riscos da acomodação. Pediu aos sacerdotes que não se deixem vencer “pelas rotinas, pela fadiga, pelas feridas, pelas desilusões pastorais e pelos pecados”, desafiando-os a evitar uma vivência resignada ou meramente funcional do sacerdócio.
“Hoje não estamos a assinar um novo contrato”, afirmou, sublinhando que a renovação das promessas é antes de tudo um reencontro pessoal com Cristo.
“É deixar que Jesus nos volte a perguntar: ‘Ainda Me amas?’”, disse, reconhecendo que essa resposta pode surgir com entusiasmo, cansaço ou até lágrimas, mas insistindo que o essencial é não a silenciar.
O rito da renovação das promessas sacerdotais acontece habitualmente na Missa Crismal, durante a qual se benzem também os santos óleos que serão usados nos diferentes sacramentos ao longo do ano, mas por razões geográficas e de mobilidade, e para permitir que todos os sacerdotes estejam atempadamente nas suas comunidades para as celebrações da Semana Santa, o bispo de Angra tradicionalmente promove esta celebração prévia para o clero das ilhas de São Miguel e Santa Maria e amanhã celebra a Missa Crismal na Sé com os restantes presbíteros das outras ilhas.
D. Armando Esteves Domingues destacou que a fidelidade sacerdotal não é rígida nem estática, mas “uma fidelidade viva”, que nasce da memória do encontro com Cristo e se renova continuamente num caminho de conversão. Recordou ainda que, antes de qualquer programa pastoral, existe um chamamento que permanece atual: “Vem e segue-Me”.
Outro dos pontos centrais da homilia foi a importância da formação permanente, não como acumulação de iniciativas, mas como forma de manter vivo o dom recebido. Nesse caminho, apontou a centralidade da Palavra de Deus, da Eucaristia, da proximidade aos pobres e da fraternidade entre os sacerdotes como elementos essenciais para evitar “narcisismos e autorreferencialidades”.
Dirigindo-se ao presbitério, reforçou a ideia de comunhão: “Nenhum de nós existe sozinho”. A fraternidade sacerdotal, afirmou, “não é um acessório, mas parte da nossa identidade”, apelando ao fortalecimento da unidade e à valorização dos encontros de ouvidoria como expressão concreta dessa comunhão.
Num contexto de diminuição do número de sacerdotes e aumento das responsabilidades, o bispo diocesano reconheceu o risco de isolamento e de uma pastoral “de sobrevivência”, mas contrapôs-lhe um caminho de confiança e comunhão, lembrando que “a linhagem que o Senhor abençoa não é a dos solitários, mas a dos que permanecem juntos no serviço”.
Por fim, deixou um apelo claro à centralidade dos pobres na missão da Igreja.
“O altar e a periferia pertencem ao mesmo Evangelho”, afirmou, insistindo que a opção pelos mais frágeis não é secundária, mas critério de fidelidade ao ministério. Entre os rostos concretos desta realidade, apontou idosos sós, famílias fragilizadas, jovens sem horizonte, migrantes, doentes e até sacerdotes cansados ou desanimados.
Na conclusão da homilia, o Bispo de Angra deixou duas palavras ao presbitério. A primeira foi “obrigado”: pelo que os sacerdotes são e fazem, nas Eucaristias em pequenas comunidades, nas confissões até tarde, nas visitas a doentes e presos, na escuta paciente e nas incompreensões. Agradeceu o “sim” quotidiano, tantas vezes escondido e sustentado apenas pela cruz de Cristo.
A segunda foi “perdão”. Reconheceu que, como Igreja, nem sempre há o acompanhamento devido — por limites da insularidade, mas também por falhas na escuta, proximidade e apoio. Convidou a renovar as promessas com verdade, lembrando a fragilidade dos “vasos de barro” e a força do Espírito, desejando que, nesta Semana Santa, o coração de Cristo volte a pulsar na vida dos sacerdotes como sinal de ternura e fidelidade para o povo.
A Missa Crismal decorre amanhã na Sé de Angra, a onde o bispo diocesano irá presidir a todas as celebrações da Semana Santa, com particular destaque para o tríduo pascal, que se inicia na quinta-feira santa com a celebração da Missa da Ceia do Senhor, às 20h00.
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