Nuno Furtado anuncia uma liderança centrada na proximidade aos ranchos, na especialização de funções e na valorização da tradição, assumindo como prioridade fortalecer a ligação entre os romeiros e as comunidades, sem esquecer a aposta na candidatura a Património Imaterial da UNESCO

A nova equipa coordenadora do Movimento de Romeiros de São Miguel nasceu da iniciativa de quatro irmãos que identificaram a necessidade de introduzir “novas abordagens” num movimento secular, afirma Nuno Furtado, o recém eleito presidente do Movimento de Romeiros de São Miguel Associação, que lidera a lista vencedora das eleições para os corpos sociais.
“O projeto foi amadurecido de forma gradual, com o envolvimento de mais elementos e a definição de uma estrutura assente na divisão de responsabilidades por áreas específicas” refere Nuno Furtado, mestre do rancho de romeiros das Furnas-Ribeira Quente.
“Cada elemento tem a sua área de intervenção. Mais do que títulos formais, o importante é a responsabilidade assumida por cada um”, explicou o coordenador, sublinhando que esta organização permitirá maior eficácia e qualidade no trabalho desenvolvido.
A motivação da nova liderança assenta, acima de tudo, na identidade do próprio romeiro.
“O que nos move é ser romeiro, é gostar desta irmandade e acreditar que podemos fazer coisas diferentes sem esquecer o trabalho já realizado por tantos irmãos antes de nós”, afirmou.
Entre as principais propostas da nova equipa, que assenta num principio de colegialidade segundo o novo coordenador, destaca-se a aposta numa equipa multidisciplinar, com competências específicas nas áreas cultural, pastoral, administrativa, segurança e saúde. Esta abordagem pretende garantir uma “intervenção mais qualificada e adaptada às exigências atuais”, incluindo “formação em segurança e melhorias nos cuidados de saúde durante as romarias”.
Apesar de reconhecer o trabalho do anterior grupo coordenador, que reforçou a credibilidade do movimento, Nuno Furtado aponta como diferença essencial a criação de uma estrutura mais especializada.
“Uma pessoa não consegue intervir em todas as áreas. Por isso, fomos buscar pessoas com conhecimento próprio para cada setor”, explicou.
Relativamente à candidatura das romarias a Património Imaterial da UNESCO, proposta que está a ser desenvolvida há largos anos, o novo coordenador garantiu continuidade, mas deixou claro que não será a principal prioridade.
“Vamos cumprir o que foi assumido, mas o foco será estar mais próximos das pessoas, das escolas e das comunidades”, afirmou, defendendo uma maior valorização interna do movimento.
Outro dos objetivos passa pelo reforço da ligação com ranchos de outras ilhas e da diáspora, mantendo, no entanto, a identidade original das romarias micaelenses.
“É positivo que existam romarias noutras ilhas, mas nunca será igual às origens. Ainda assim, mostra que estamos a fazer bem o nosso trabalho”, referiu.
A proximidade será, aliás, a principal marca deste mandato. O coordenador compromete-se a estar mais presente junto dos ranchos, ouvir as suas necessidades e promover uma gestão participativa.
“Todos contam, todos são importantes. O movimento existe para servir os ranchos, não para mandar”, sublinhou.
Quanto à recente disputa eleitoral, que contou com duas listas, Nuno Furtado rejeita qualquer divisão.
“Acabaram as listas. Agora é o movimento dos Romeiros, com todos”, garantiu, destacando a inclusão de elementos de diferentes sensibilidades em projetos futuros.
As primeiras iniciativas da nova coordenação já estão em marcha, com destaque para a organização do Dia do Romeiro, que trará algumas novidades ainda por revelar. Paralelamente, a equipa trabalha na reestruturação da sede e na preparação de várias atividades ao longo do ano.
O novo ciclo arranca, assim, com a promessa de continuidade, inovação e unidade, numa tentativa de fortalecer um dos mais emblemáticos movimentos religiosos e culturais dos Açores.
O Movimento de Romeiros de São Miguel – Associação (MRSM) é uma associação privada de fiéis, sem fins lucrativos, que tem como missão coordenar, organizar e preservar as tradicionais Romarias Quaresmais na ilha de São Miguel, nos Açores. Esta entidade desempenha um papel fundamental na continuidade de uma das mais antigas manifestações religiosas da região, uma tradição com mais de 500 anos que reúne ranchos de homens que percorrem a ilha a pé durante o período da Quaresma.
Estatutariamente a atuação do MRSM centra-se na coordenação dos diversos ranchos de romeiros, que realizam peregrinações de oito dias, assegurando simultaneamente o respeito pelas práticas e rituais tradicionais. Entre estes, destacam-se a indumentária característica — composta por lenço, xale, bordão e rosário — e a vivência espiritual marcada pela oração contínua, pela penitência e pela devoção a Nossa Senhora.
A associação é gerida por um Grupo Coordenador, eleito para mandatos de quatro anos, sendo responsável pela orientação estratégica e pelo apoio direto aos ranchos. As eleições mais recentes tiveram lugar a 17 de abril de 2026, refletindo a dinâmica participativa do movimento.
Para além da organização interna, o MRSM tem assumido um papel relevante na valorização cultural desta tradição, tendo promovido a candidatura das Romarias ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), reforçando o reconhecimento do seu valor histórico, religioso e identitário.
A associação disponibiliza ainda um site oficial onde são divulgadas informações essenciais, como o mapa das pernoitas, o calendário das romarias e os diretórios dos ranchos, contribuindo para uma melhor articulação entre participantes e para a divulgação desta prática secular junto da comunidade.
Existem no total 54 freguesias (2023) com ranchos de romeiros na ilha de São Miguel, aos quais juntam-se dois ranhos vindos de duas freguesias da Diáspora.