Pela primeira vez, o Convento da Esperança abriu portas durante as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Mais do que uma visita, foi uma experiência de fé profunda , descrita pelos fiéis como “inexplicável”, “intensa” e, para muitos, “transformadora”

A porta abre-se e, com ela, algo mais difícil de descrever. Não é apenas um espaço que se revela, é uma sensação, uma presença, uma emoção que se instala. Para muitos dos que entraram pela primeira vez no Convento da Esperança, esta não foi uma simples visita guiada. Foi um encontro.
Luís Fernandes já vem às festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres desde 2016, mas nunca tinha entrado no convento. Desta vez, decidiu aproveitar a oportunidade criada e não saiu indiferente.
“Tenho de vir sempre… estar ao pé do Senhor Santo Cristo é estranho, mas é lindo. Parece que ouço uma voz, que não sei explicar”, conta. A ligação, diz, foi imediata: “A primeira vez que vim cá fiquei logo ligado.”
Também para Carina Rocha tudo é novidade. Entrou pela primeira vez no espaço onde nasceu este culto e as palavras parecem não chegar para traduzir o que sentiu.
“É magnífico… é o que acho do Senhor Santo Cristo. Move-me uma fé que não sei descrever… não dá para explicar. Sentimos qualquer coisa.”
Mas é no testemunho de Maria Providência Arezes que a dimensão desta experiência ganha ainda mais profundidade. Há quatro anos que vem à festa cumprir uma promessa, depois de uma doença grave. A devoção já vinha de trás, mas desta vez foi diferente.
“Nunca pensei ter esta oportunidade”, diz, emocionada. Aproximar-se da imagem, dentro do convento, foi mais do que simbólico: “Representa o céu aberto… está tudo aqui. Ele está sempre próximo de mim, mas estar ao pé da imagem é sempre diferente.”
Ao longo de dois dias, dezenas de fiéis percorreram os vários espaços do convento, do jardim ao coro baixo (habitualmente aberto diariamente entre as 17h30 e as 18h30), da sala de exposição das capas ao coro alto, até à roda, antigo ponto de contacto com o exterior. Mas, mais do que o percurso físico, foi a vivência interior que marcou cada visita.
Vindos de várias ilhas dos Açores, do continente e da diáspora, os mais de 250 visitantes trouxeram consigo histórias, promessas, dúvidas e gratidão. E encontraram, entre paredes carregadas de história, algo que muitos descrevem da mesma forma: uma fé que não se explica, sente-se.
O Convento da Esperança abriu, pela primeira vez, as suas portas ao público durante dois dias, numa iniciativa integrada nas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. A proposta permitiu aos fiéis e visitantes conhecer de perto um espaço habitualmente reservado, devolvendo à comunidade um património de profundo valor religioso, histórico e cultural.
Segundo o reitor, o cónego Manuel Carlos Alves, o balanço desta primeira experiência é claramente positivo.
“As visitas foram organizadas por grupos, com horários definidos, garantindo sempre a segurança. É uma iniciativa para manter e, eventualmente, aperfeiçoar”, afirmou.
O responsável sublinha ainda a importância de abrir este património à comunidade: “É fundamental devolver tudo isto às pessoas, não apenas na sua dimensão religiosa, mas também cultural. Este espaço tem muito para oferecer e deve ser usufruído por todos.”
Apesar do sucesso, o reitor reconhece a necessidade de ajustes. A possibilidade de alargar a iniciativa a mais dias – eventualmente durante toda a semana das festas ou até ao longo do ano – está em análise.
“Temos muita atividade e há questões logísticas e de segurança a considerar. Mas queremos potenciar este tipo de iniciativas”, explicou.
A dimensão evangelizadora do espaço é outro dos pontos destacados. Para o reitor, o património do convento pode ser um meio privilegiado de transmitir a fé: “A partir de uma peça, de uma imagem, podemos explicar o culto e a vida que aqui se organizava. Mas isso exige pessoas com formação e sensibilidade.”
Questionado sobre a criação de um núcleo museológico, o responsável foi direto: “Não falta motivação. Precisamos é de especialistas que nos ajudem a estruturar o projeto e a concretizá-lo.”
Durante os dois dias de portas abertas, passaram pelo convento cerca de três centenas de peregrinos, maioritariamente açorianos oriundos das ilhas Terceira, Graciosa, Faial, Corvo e São Miguel, além de emigrantes da diáspora e alguns turistas.






