Mostra no Centro Interpretativo de Angra do Heroísmo revela um acervo singular dedicado à preservação da memória cultural açoriana

O Centro Interpretativo de Angra do Heroísmo inaugura, no próximo dia 8 de junho, uma exposição inédita dedicada à coleção de Francisco Ernesto de Oliveira Martins, figura reconhecida pelo seu trabalho de investigação, preservação e divulgação do património cultural açoriano. A iniciativa promete afirmar-se como um dos acontecimentos culturais de maior relevância no concelho, reunindo peças de excecional valor histórico e cultural, muitas delas inéditas para o grande público, informa uma nota enviada ao Sítio Igreja Açores.
A mostra, intitulada “Coleção Francisco Ernesto de Oliveira Martins: um percurso sentimental”, presta homenagem ao investigador e ao vasto trabalho desenvolvido ao longo de décadas em defesa da memória coletiva dos Açores. O evento é promovido pela Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, em parceria com o Centro Interpretativo, e pretende proporcionar ao público uma viagem profunda pelas tradições, objetos e narrativas que marcaram a identidade açoriana e têm estado fora do alcance do olhar público.
Segundo a nota enviada ao sítio Igreja Açores, a coleção agora apresentada “reúne bens significativos das Artes Decorativas açorianas e propõe uma viagem por um percurso pessoal, que reflete décadas de dedicação à preservação do património”.
“Trata-se de uma oportunidade rara para conhecer um espólio que testemunha não apenas um peculiar processo colecionístico e a sua associação a uma ideia da autonomia açoriana, mas também aspetos da história local e da riqueza patrimonial que definem os Açores”, refere ainda a nota, assinada pela curadora, Maria Manuel Velasquez Ribeiro.
Natural da freguesia da Fonte do Bastardo (Praia da Vitória – Açores), Francisco Ernesto de Oliveira Martins (1930–2012) foi colecionador, investigador e divulgador incansável do património açoriano. Autor de obras de referência sobre património artístico, destaque-se o seminal Subsídios para o Inventário Artístico dos Açores, publicado em 1980 e resultante do levantamento de bens patrimoniais de abrangência regional que a então jovem Direção Regional dos Assuntos Culturais decide empreender, e incumbir-lhe. Da obra, em crítica inserida na Colóquio Artes de 1982, José Augusto França salienta o notável conteúdo informativo recolhido e a notável sinalização de peças até então desconhecidas, nem suspeitadas.
Com essa obra o colecionador-investigador inicia uma longa e bem-sucedida atividade editorial, na qual se destacaram títulos como A Escultura nos Açores (1983), Mobiliário Açoriano. Elementos para o seu estudo (1981), Os Açores nas Rotas das Américas e da Prata (1990), Arte Flamenga nos Açores (1991) ou Os Açores nas rotas dos marfins e das porcelanas orientais (1995), obras em que a coleção pessoal assume um caráter de coleção laboratório.
Reunido principalmente na Região, “o conjunto demonstra uma coerência constitutiva marcante e uma vocação identitária de memorial açoriano gradualmente cumprida que assume, dir-se-ia, uma função metalinguística (ou meta-coleção) ao debruçar-se e regressar ao seu próprio fazer como pretexto para a busca seletiva de novas peças a descobrir e incorporar”, refere Maria Manuel Velasquez Ribeiro.
Ao longo do seu percurso, Francisco Ernesto de Oliveira Martins distinguiu-se pela capacidade de unir investigação académica, recolha etnográfica e intervenção cívica, assumindo um papel determinante na salvaguarda do património cultural açoriano.
Além da vertente expositiva, o programa associado à exposição até pelo menos ao final do ano, prevê, ainda, a realização de visitas comentadas, sessões de reflexão sobre património cultural e encontros com investigadores ligados às áreas da museologia, história e antropologia. O objetivo é transformar a exposição num espaço de diálogo e partilha de conhecimento, aproximando a comunidade da riqueza do património açoriano.
A sessão de inauguração da mostra reunirá representantes de instituições culturais, investigadores, académicos e membros da comunidade, entre eles José Guilherme Reis Leite, Francisco Maduro Dias, a curadora da exposição bem como a família e a autarquia.
A exposição ficará patente ao público no Centro Interpretativo de Angra do Heroísmo, oferecendo aos visitantes uma oportunidade única para mergulhar na riqueza histórica, artística e etnográfica dos Açores através de um espólio considerado singular no panorama cultural da região. A entrada é livre.
