
Leão XIV tornou-se hoje no primeiro Papa a discursar no Parlamento espanhol, onde deixou um alerta contra a polarização política e a corrida global ao armamento.
“O mundo atravessa uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança mútua. Neste contexto, a paz surge como uma aspiração política e, mais ainda, como uma verdadeira exigência moral”, disse, perante os membros do Congresso dos Deputados e do Senado, reunidos numa sessão conjunta, em Madrid.
“A pluralidade política não deve degenerar numa desqualificação permanente do adversário”, acrescentou Leão XIV.
O Papa sustentou que “o conflito pode tornar-se um caminho para a paz, quando as diferenças são atenuadas pela escuta e orientadas para o reconhecimento das necessidades, dos anseios e das capacidades de todos”.
O mais longo discurso, até ao momento, da viagem iniciada este sábado considerou “preocupante” a corrida ao armamento em várias partes do mundo, também na Europa, o face à “fragilidade do cenário internacional”.
“Qualquer guerra constitui, em última análise, uma dolorosa derrota da capacidade de negociar e também daquela consciência comum da humanidade que reconhece os laços de justiça entre as nações. As armas podem impor um silêncio temporário, mas nunca poderão edificar uma paz autêntica e duradoura”, assinalou o pontífice.
O Papa exigiu a defesa incondicional da vida humana, apresentando-a como uma meta civilizacional e um “valor fundamental”.
“Pode considerar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros?”, questionou.
Leão XIV sustentou que a “grandeza moral” de uma nação se manifesta, sobretudo, “na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas que se encontram em maior situação de fragilidade”.
“A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é um objetivo da civilização. Toda a vida humana deve ser reconhecida e protegida desde a sua conceção até ao seu fim natural, em todas as circunstâncias da sua existência.”

A proteção legal do segredo de Confissão foi também abordada, sendo enquadrada na salvaguarda da liberdade religiosa perante os limites do poder público num Estado democrático.
“Tutelá-lo juridicamente, como acontece de modo análogo nalgumas profissões, significa preservar um espaço sagrado de liberdade interior”, precisou o pontífice, evocando as “normas internacionais”.
Leão XIV deixou votos de que “a dignidade, a justiça e o bem comum” sejam o critério das relações sociais, “tanto a nível nacional como internacional”.
O discurso abordou também a importância da família como instituição primordial e a relevância das entidades educativas na transmissão de valores às novas gerações.
Esta colaboração, observou o Papa, exige o respeito pelo “direito primário e inalienável” dos pais em escolher o tipo de educação para os filhos, em coerência com as suas próprias convicções.
A intervenção apelou ao diálogo entre Igreja e Estado, destacando que a fé “não pode ser relegada ao silêncio, como se fosse irrelevante para a vida pública”.
“A liberdade sobre a qual se assenta o Estado contemporâneo, se for autêntica, reconhece a dimensão religiosa do ser humano, respeita-a e protege-a juridicamente; e evita que alguém tenha de renunciar a contribuir para a sociedade em que vive por causa da sua fé”, disse.
«É indispensável uma resposta coordenada, solidária e eficaz, capaz de garantir proteção, acolhimento e oportunidades reais de integração a quem emigra» – Leão XIV

No seu discurso, diante dos deputados, Leão XIV pediu uma resposta global para as migrações e exigiu a criação de” rotas seguras” para quem procura condições dignas de vida.
“A afirmação da dignidade humana não pode permanecer abstrata quando tantas pessoas são obrigadas a deixar tudo para trás em busca de paz, segurança e um futuro. Também o trágico drama migratório interpela hoje a consciência das nações e os fundamentos éticos da ordem internacional”, disse Leão XIV, perante os membros do Congresso dos Deputados e do Senado, reunidos numa sessão conjunta, em Madrid.
O líder da Igreja Católica rejeitou uma abordagem estritamente demográfica ou económica à situação dos migrantes e refugiados, pedindo uma resposta que se “centre nas pessoas, que enfrente as causas que as obrigam a partir e que vá além da mera gestão dos fluxos”.
“Daí surge uma dupla exigência de justiça social: oferecer vias seguras e legais, um acolhimento respeitoso e possibilidades reais de integração; e promover, ao mesmo tempo, o direito de permanecer na própria terra, trabalhando para que ninguém tenha de abandonar o seu lar por falta de paz, segurança ou condições dignas de vida, entre as quais as desigualdades económicas e os efeitos da crise climática”, afirmou.
A reflexão reclamou um combate efetivo às desigualdades económicas e aos efeitos da crise climática.
“Inúmeros homens, mulheres e crianças são obrigados, por circunstâncias muitas vezes dramáticas, a abandonar as suas comunidades e a deixar para trás entes queridos, histórias e laços”, observou.
Perante os responsáveis políticos de Espanha, o Papa denunciou a exploração nas rotas internacionais, recordando que “muitas pessoas continuam a ser presas de traficantes e contrabandistas que se aproveitam do seu desespero”.
“Nenhuma nação pode enfrentar sozinha um desafio desta magnitude. Por isso, é indispensável uma resposta coordenada, solidária e eficaz, capaz de garantir proteção, acolhimento e oportunidades reais de integração a quem emigra”, assumiu Leão XIV, pedindo uma cooperação multilateral focada na prevenção e no resgate das vítimas do tráfico humano
A intervenção assinalou a importância de uma resposta institucional “próxima, justa e coordenada”, que respeite a dignidade humana.
“Quando uma pessoa é discriminada pela sua origem nacional, étnica, religiosa ou linguística, ou pela sua condição económica ou social, viola-se gravemente o princípio universal da igual dignidade de todos os seres humanos.”
O discurso no Palácio das Cortes assumiu a importância histórica do momento.
“A minha presença entre vós pretende ser um gesto de proximidade para com a Espanha, no âmbito da cooperação mútua, e uma palavra oferecida a partir do serviço à pessoa humana”, referiu o Papa.
O programa oficial do pontífice arrancou esta manhã na Nunciatura Apostólica com um encontro privado entre Leão XIV e o presidente do Governo de Espanha, Pedro Sánchez.
A deslocação ao Palácio das Cortes incluiu a execução dos hinos nacionais e a assinatura do Livro de Honra, antes da receção formal pelos presidentes do Congresso e do Senado, no hemiciclo.
O Papa iniciou no último sábado a sua primeira visita à Espanha, que passa ainda por Barcelona e pelo arquipélago das Canárias, até 12 de junho.
(Com Ecclesia)