Cidade de Angra do Heroísmo abre ao público o universo de um colecionador apaixonado

Exposição reúne cerca de 300 peças do espólio de Francisco Ernesto de Oliveira Martins, 14 anos após a sua morte

Foi inaugurada esta tarde, no Centro Interpretativo de Angra do Heroísmo, a exposição “Francisco Ernesto de Oliveira Martins: um percurso sentimental”, uma mostra que revela pela primeira vez ao grande público uma parte significativa do vasto espólio reunido ao longo de décadas por aquele que foi um dos mais dedicados colecionadores açorianos.

Catorze anos após a sua morte, a exposição presta homenagem a uma personalidade que fez da preservação da memória, da arte e do património uma verdadeira missão de vida. Distribuída por diferentes núcleos temáticos, a mostra apresenta cerca de 300 peças, entre imaginária religiosa, mobiliário, marfins, cerâmica e diversos objetos de artes decorativas, testemunhando a diversidade de interesses e a sensibilidade estética do colecionador.

Mais do que uma simples reunião de objetos, a exposição procura contar uma história pessoal. Cada peça exposta reflete um percurso marcado pela curiosidade, pelo conhecimento e pelo prazer da descoberta, revelando também os laços afetivos que Francisco Ernesto de Oliveira Martins estabeleceu com o património que foi reunindo ao longo dos anos.

Na cerimónia de inauguração, o filho, Jorge Tiago de Oliveira Martins, destacou precisamente essa dimensão humana da coleção.

“O meu pai nunca colecionou por acumular. Cada peça tinha uma história, um contexto e um significado. Esta exposição é uma forma de partilhar com todos aquilo que durante muitos anos fez parte da sua vida e da nossa vida familiar”, afirmou ao Sítio Igreja Açores.

Jorge Tiago de Oliveira Martins recordou ainda que muitas das peças foram adquiridas através de um paciente trabalho de pesquisa e recuperação, movido pelo desejo de preservar testemunhos da história açoriana e portuguesa.

“Há aqui muito daquilo que ele era: a paixão pelo património, a curiosidade intelectual e a vontade de salvar objetos que, de outra forma, poderiam ter-se perdido.”

Entre as peças em destaque encontram-se exemplares de imaginária sacra dos séculos XVII e XVIII, mobiliário de diferentes épocas e proveniências, delicados trabalhos em marfim e conjuntos de cerâmica que ilustram vários momentos da produção artística nacional e internacional. A diversidade do acervo permite ao visitante percorrer não apenas a trajetória do colecionador, mas também diferentes períodos da história da arte e das artes decorativas, sempre relacionadas com os Açores e sobretudo com a ilha Terceira.

Presente na inauguração, o historiador e amigo de longa data José Guilherme Reis Leite sublinhou a importância cultural da iniciativa.

“Francisco Ernesto foi um homem que compreendeu muito cedo o valor da memória material. Esta coleção não é apenas o reflexo do seu gosto pessoal; é também um importante testemunho de uma época e de uma forma de olhar para o património.”

Para José Guilherme Reis Leite, a abertura do espólio ao público constitui um momento de particular relevância para a cultura açoriana.

“Durante anos, muitas destas peças estiveram apenas ao alcance de familiares e amigos próximos. Hoje passam a integrar uma narrativa coletiva, permitindo que todos conheçam melhor o trabalho de uma vida dedicada à preservação e ao colecionismo.”

A exposição convida os visitantes a descobrir não apenas objetos de excecional interesse artístico, mas também a personalidade de quem os reuniu. Ao longo do percurso expositivo, cruzam-se histórias de aquisição, memórias familiares e referências ao contexto histórico das obras, compondo um retrato íntimo e simultaneamente universal de um colecionador movido pela paixão pela arte.

Esta mostra que tem como curador Maria Manuel Velasquez Ribeiro, ficará patente no centro Interpretativo de Angra – a Câmara é a grande impulsionadora da exposição- durante um ano estando previstas várias iniciativas como visitas comentadas, peças do mês e outras de forma a tornar esta mostra dinâmica e susceptível de várias visitas.

Esta tarde, autoridades , família e amigos prestaram homenagem a este colecionador natural da fonte do Bastardo, na ilha Terceira que, embora autodidata, como refere a curadora, manteve com a academia contactos e relações que permitiram desenvolver estudos sobre a arte em Portugal. Algumas peças do seu espólio integram o designado tesouro da Sé de Angra, por doação à Diocese.

Coleção de Francisco Ernesto Oliveira Martins: “É uma oportunidade rara para conhecer um espólio que testemunha a história local e a riqueza patrimonial dos Açores”

Scroll to Top