“Ele tinha uma visão muito profunda e abrangente dos Açores e do país e do relacionamento internacional, com uma marca muito humanista que deixou vestígios na Universidade”- Luís Andrade

A condecoração da Universidade dos Açores pelo Presidente da República, atribuída esta quarta-feira, 10 de Junho, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, representa o reconhecimento de meio século de uma instituição que marcou profundamente o desenvolvimento científico, cultural e social da Região Autónoma dos Açores.
Na origem deste projeto universitário encontra-se uma visão que nasceu muito antes da criação formal do Instituto Universitário dos Açores, em 1976. Uma visão construída no seio da Igreja Católica, particularmente através do Seminário Episcopal de Angra e das históricas Semanas de Estudo, encontros de reflexão que, nas décadas de 1960 e 1970, reuniram académicos, intelectuais e agentes da sociedade açoriana para pensar o futuro do arquipélago.
O principal rosto dessa visão foi o então padre José Enes, sacerdote, filósofo, doutorado em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, professor do Seminário de Angra, fundador e primeiro reitor da Universidade dos Açores. Para além de defender a necessidade de dotar a Região de uma instituição de ensino superior, José Enes acreditava que os Açores poderiam afirmar-se como um centro de pensamento estratégico com projeção internacional, tirando partido da sua singular posição geoestratégica no Atlântico.
Segundo o professor catedrático Luís Andrade, ex diretor do Centro de Estudos de Relações Internacionais e Estratégia da Universidade dos Açores, fundado por José Enes e extinto entretanto, a preocupação do primeiro reitor ultrapassava largamente as questões académicas.
“José Enes tinha uma visão muito profunda e abrangente dos Açores e do país, mas também do papel que o arquipélago podia desempenhar no relacionamento transatlântico entre a Europa, os Estados Unidos e o espaço atlântico em geral”, recorda Luís Andrade.
Essa perspetiva viria a materializar-se na criação do Centro de Estudos de Relações Internacionais e Estratégia, um dos primeiros “think tanks” académicos da Região, dedicado à reflexão sobre o posicionamento dos Açores nas relações internacionais e na projeção atlântica de Portugal, não apenas no Atlântico Norte, isto é, Estados Unidos e Canadá, mas também no Atlântico Sul e o professor José Enes abordava com frequência essa questão, até pela língua.
“Vi muitas vezes o professor José Enes a referir a necessidade de se pensar esta relação nos dois hemisférios. A relação com as ex colónias e a relação com o Brasil, lugares onde se falava português, era algo que deveria ser melhor explorado por Portugal e os Açores tinham aí um papel fundamental devido à sua posição estratégica”, refere o docente da Universidade dos Açores.
O desenvolvimento harmonioso do arquipélago era de resto uma das grandes linhas de pensamento de futuro reitor da universidade açoriana, reconhece.
Para Luís Andrade, as Semanas de Estudo tiveram um papel decisivo na formação deste pensamento.
“A importância das Semanas de Estudo na década de 60 foi muito significativa para o desenvolvimento do modelo autonómico e para a criação da Universidade dos Açores. O cunho humanista, cultural e filosófico que caracterizou aqueles encontros foi posteriormente transmitido para a Universidade”, afirma.
A influência da Igreja não se limitou à formação intelectual dos seus protagonistas. Trouxe também uma visão humanista do ensino superior, assente na valorização da pessoa, no diálogo entre cultura, ciência, nos seus mais variados domínios- mar, terra, ciências sociais- e sociedade e na convicção de que o conhecimento deveria estar ao serviço do desenvolvimento coletivo, sublinha ainda o professor de Relações Internacionais.
José Enes defendia igualmente um modelo universitário assente em três polos – Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta – como forma de garantir a coesão territorial do arquipélago. Uma opção que, à época, exigiu determinação política e capacidade de visão estratégica, mas que continua a ser hoje apontada como um dos fatores de equilíbrio regional e de proximidade da Universidade às diferentes ilhas.
Como sublinha Luís Andrade, “José Enes teve desde o início a preocupação de criar nos Açores um espaço onde os diversos domínios do saber pudessem desenvolver-se e consolidar-se. Tinha uma extraordinária capacidade de pensar o futuro dos Açores e via na Universidade um instrumento essencial para o desenvolvimento da Região”.
Esta quarta-feira a Universidade foi condecorada. Segundo uma nota da Presidência da república “a Universidade dos Açores tem desenvolvido um papel fundamental na promoção da igualdade de oportunidades, do conhecimento e do desenvolvimento humano num território marcado pela dispersão geográfica e pela condição ultraperiférica”.
“Enquanto única universidade pública dos Açores, tem vindo a afirmar-se como fator de coesão territorial e social, transformando os desafios da insularidade em oportunidades de conhecimento e projetando internacionalmente a Região Autónoma dos Açores, através da excelência do seu ensino e da investigação científica em domínios de relevância global, como as ciências do mar, as alterações climáticas, a vulcanologia, a biodiversidade e a sustentabilidade dos oceanos” salienta ainda a nota publicada na página online da Presidência da república.
Hoje, nas comemorações do Dia de Portugal, entre outras coisas, António José Seguro, sublinhou a importância estratégica dos Açores no contexto europeu e transatlântico, defendendo simultaneamente o reforço da autonomia regional como fator de coesão e desenvolvimento nacional.
