Por Renato Moura

Somos confrontados permanentemente com suspeitas acerca da probidade ou imparcialidade das pessoas; se os alvos são cidadãos destacados, as notícias arrastam-se.

Já quase se instituiu que: os políticos só o são para se aproveitarem; quando há parentes num órgão, é para falcatruar; se alguém jantou com pessoa influente, é para meter cunha; quando os árbitros erram, foi para beneficiar uns, em prejuízo de outros; se um dirigente fala de erros de arbitragem, é sempre para pressionar árbitros; se uma juíza for mulher, não será independente em julgamentos que envolvam mulheres, etc.!

As suspeitas propaladas, antes de provadas e ainda se infundadas, caluniam e denigrem pessoas e instituições. Há jornalistas que se proclamam investigadores da verdade, mas ficam-se pelo arrastamento das suspeitas, como nos programas desportivos que enxameiam os canais de televisão, quase sem analisar o desporto, os jogos e os praticantes (e louvando a falta “necessária e útil”, ou a rasteira oportuna para “matar o contra-ataque”!).

Outro dia um canal de televisão lançou aos telespectadores o desafio de responderem se desejariam que os jogos de futebol fossem dirigidos por árbitros estrangeiros!!! Só falta alguém propor que os portugueses votassem que os cargos do governo português e os lugares de magistrados dos nossos tribunais fossem preenchidos só por estrangeiros.

Duvida-se de tudo e de todos, em tudo se imaginam sinais de tramóia, são tamanhos os despautérios da linguagem, flagela-se e sentencia-se. Quem o faz conheceu testemunhadas influências ilegítimas, crimes comprovados de políticos, de organizações desportivas, etc. Talvez atitudes condenáveis motivem suspeitas exageradas. Mas generalizar é criminoso.

Que daqui se não infira que é aceitável tolerar o incumprimento dos deveres públicos, ajudar o encobrimento ou compactuar com o crime. Há, ao invés, que cumprir o dever de denunciar os erros e ou ilegalidades de agentes e ou de instituições públicas. Só que meras suspeitas seriam para encaminhar, com todos os seus indícios, para órgãos de investigação.

Não faltam sinais de que vivemos numa sociedade cada vez mais desumanizada: mesmo em meios pequenos, onde as pessoas se conhecem, já não se saúdam; perderam-se as regras de pedir licença, ou por favor e de dizer obrigado; os membros da sociedade estão presos na rede social, amarrados ao telemóvel; cada um fechado no seu egocentrismo; na singularidade do seu grupo ou instituição.

Se não há fraternidade, a suspeita não dói… e generaliza-se como arma.