Mente quem diz que “quando se morre, morre-se só”.

Não é assim. Morrer é um acontecimento recíproco: morre-se sempre para alguém. Quem não morre para alguém, não morre deveras. Ou não viveu deveras. É como viver: vive-se sempre para alguém ou então está-se mais ou menos morto em vida.

Há sempre um bom alqueire de nós, uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante, que se vai embora com quem vai. Resta-nos outro tanto, porque nós somos constituídos essencialmente por pedaços de quem nos amou.

A experiência da morte de meu pai (que eu não podia deixar de escolher como o acontecimento pessoal do ano) não foi um choque violento. Não me deixou destroçado nem com aquele vazio existencial. Não vai deixar traumas nem gerar aquele profundo e desolado desgosto. Em parte porque a doença já o vinha regateando à vida a preços desonestos. Mas também, e essencialmente, porque a sua morte foi a última lição de vida. Neste momento consigo descortinar, com nitidez, qual foi o lema implícito, como a dizer inconsciente, da vida dele: não ser, ele mesmo, motivo de sofrimento para ninguém. Sempre que podia passava despercebido, como quem corta cabelos na última cadeira da barbearia, silencioso, encostado com o seu bigode à parede espelhada do fundo da sala.

Aos 12 anos foi fazer barbas para a Praia, então pocinho de areia. Tudo o que ganhava era para a casa dos pais. Quando casou, 12 anos depois, tudo o que ganhava passou a ter uma única preocupação: a mulher e os filhos. Nada era seu. E quando os filhos encarreiraram e partiram para a vida; quando, finalmente, podia começar a pensar em si, a doença carimbou-lhe um bilhete só de ida, numa lista de espera que durou 12 anos.

Das doenças, dos achaques, dos problemas profissionais ou existenciais dele pouco sabíamos, como se não fossem da nossa conta. Esses, guardava-os para si, a bem ou a mal resolvia-os ele, que nunca se permitiu acrescentar os seus problemas aos problemas de casa. Os seus verdadeiros problemas eram os nossos: desde a saúde até aos estudos, desde a preocupação obsessiva em que não faltasse nada ao futuro dos filhos até às dores que lhe duplicavam de cada vez que a doença passava lá por casa.

Não era homem de carinhos ou carícias e talvez nunca tenha entendido o amor como uma dose de festinhas. A maneira de ele amar derramava-se nas formas de nos proteger; no nunca se permitir deixar que algo de mal nos acontecesse; no não dormir se não estávamos bem. Ou nos beijos e carícias que nos dava durante o sono.

A doença penosamente degradante que o arrastou nos últimos anos foi-lhe a última e mais injusta de todas as torturas. E assim veio a morrer, como quem escolhe a hora, como quem sabe o timing mais ou menos exacto em que se deve partir sem deixar um rasto demasiado vincado. E o rasto é uma espécie de saudade, tão curta como o resto da minha vida, não apenas dos momentos que partilhei com ele, mas também, e talvez sobretudo, daqueles abraços lindos que ficaram por dar. Saudades dos exactos momentos em que ficou por dizer, sem ponta de vergonha na cara, sem nenhum respeito humano, sem medo das consequências: “amo-te, pai”.

Pois é, Manuel Barbeiro. Tenho cá dentro um grito à procura da boca. Um nó em busca da garganta. O resto, o mais importante, está à conta do Bom Deus. A fé é também saber que a morte não é o último acontecimento da vida. É o penúltimo. Ao último chamamos Amor. Deus É.

Até para o ano, se Deus quiser.

Pe Júlio Rocha