No meio do mar havia uma terra magnífica cuja produtividade era tão grande que a fazia dez vezes maior do que parecia, um mar com um potencial da dimensão do sonho e uma localização fantástica no centro do mundo desenvolvido.

E, como resultante destes três talentos, uma beleza ao mesmo tempo tenebrosa e paradisíaca; e uma gente culta, boa e divertida, potenciadora de criação, de festa e de santidade na ilha e nos vários cantos do mundo.

No entanto, apesar dos seus enormes talentos e capacidades, essa mesma ilha estava cada vez mais insegura face ao seu desígnio de serviço ao mundo que os seus talentos e capacidades possibilitavam. A insegurança começava pelo convencimento de que era pobre e periférica, ultraperiférica, atreviam-se alguns a dizer; esqueciam-se assim da produtividade da terra, do desígnio do mar, da centralidade da posição, do espanto da paisagem e da sabedoria e graça das gentes. Esse convencimento miserabilista era alimentado pelos vários níveis de poderes a quem tinham que pedir, para benefício dos pedintes e dos seus subordinados uma ínfima parte das rendas que eram arrecadadas por fora. Rendas do uso da terra, cujos empresários transformadores passaram a estar longe; rendas do mar, vendido à Europa, e rendas da localização, vendido abaixo de custo aos americanos. Restava venderem as gentes em mais vagas de emigração e de remessas e degradarem-se as paisagens com obras sobredimensionadas.

É neste contexto de dependência que a Ilha se encontrava no início do século XXI. Pareciam contentes por irem fazer compras de avião a preços mais baratos mesmo que quem os quisesse visitar pagasse mais caro. Mostravam-se satisfeitos em receberem reformas e pensões, ficarem de baixa e ter contrato na função pública sem nunca se questionarem do que é que perdiam em sabedoria de serviço aos outros por aceitarem esses pagamentos unilaterais. E não reagiam quando, de fora, lhes fechavam cursos promissores, lhes desertificavam os portos e aeroportos cheios de capacidade e lhes destruíam empregos sustentáveis para filhos e netos, apesar de proliferarem projectos e empresas para arrecadarem os últimos fundos da venda de capacidades.

Percebiam-se três diferentes atitudes nesta insegurança aparentemente generalizada. Uns continuavam a divertir-se porque ao menos isso haveria de perdurar, assim pensavam; pobres mas felizes era a sua certeza distraída. Esqueciam-se de olhar um pouco para o lado ou para dentro das casas e lares onde a pobreza envergonhada ia tomando forma ao ponto de nem ser possível ou pensável emigrar.

Outros ainda mais distraídos do real continuavam a acreditar nas empresas públicas e nas infraestruturas, nos dinheiros vindos da Europa e da mitigação da saída dos americanos. Não se apercebiam do excesso de capacidade em investimento para bens e serviços não transaccionáveis e continuavam a pensar, ou queriam pensar, que a construção de mais estradas e edifícios, ou a compra de mais equipamento e o reforço da formação, iria alegadamente promover o desenvolvimento. Não há dúvida de que criariam essa ilusão enquanto durasse o investimento mas passado isso continuariam a ver casas e edifícios vazios e, a prazo, degradados.

Os terceiros, poucos, apostavam em aproveitar os talentos embora com mais dificuldade. Por um lado não tinham apoios por que os seus esforços não garantiam eleições. Por outro lado tinham que sobreviver na embriaguez dos festivos-tristes, dos construtores de obras inúteis e dos que impediam a criação do que não podiam controlar. Estes mobilizadores de talentos para os sonhos iriam porventura perder no curto prazo mas a sua atitude é que iria dar vida aos talentos da Ilha.

Tomaz Dentinho