Pelo padre José Júlio Rocha

Aqui há dias vi, no Facebook, um vídeo engraçado. Tratava-se de dois cães separados por uma cancela de barras de metal. Um dos cães do lado de dentro e outro do lado de fora, cada um no seu território. Ladravam enraivecidos, um contra o outro. Arreganhavam os dentes, espumavam baba e ladrazavam ferozes, prontos a devorarem-se ao primeiro contato, tal era a violência da cena. O dono, com o telecomando, abriu a cancela, que correu devagarinho. Quando se viram diante um do outro, sem obstáculos nem fronteiras, sem delimitação do território a defender, estacaram, as orelhas viraram para trás, cheiraram-se e ficaram parados, pacificamente, a olharem-se, curiosos. O dono voltou a fechar a cancela e a guerra recomeçou, com os cães a ladrazarem e a espumarem baba, numa raiva incontida.

Este fenómeno interessante da defesa do território, que vemos na televisão, quando os leões urinam nos troncos das árvores e nas pedras para demarcarem o seu terreno e o das suas fêmeas, é conatural aos animais e aos homens. A posse demarca o que é meu do que é teu, e não deixa de ser um fenómeno misterioso.

Quando eu era criança, havia um rapaz, mais ou menos vizinho, mais ou menos da mesma idade, com quem tive algumas rixas infantis. Lembro-me de uma cena castiça: ele do lado de dentro do portão da sua casa e eu do lado de fora. Ele brandia um bordão velho, que batia contra o portão e me ameaçava: “se entrares na minha casa levas com este bordão pela cabeça abaixo.” E eu calado. No dia seguinte ele apareceu em nossa casa, mandado pela sua mãe para pedir qualquer coisa à minha mãe. E eu, indignado, perguntei-lhe se ainda me queria bater. Ele baixou a cabeça, avermelhou o rosto e esteve vai-não-vai para chorar de medo e timidez.

Tudo isto diz muito sobre o lugar que pisamos e a importância que ele tem para nós. Estar no que é meu é muito diferente do que estar no que é dos outros. Ninguém entra em casa alheia sem bater à porta e pedir licença. Ninguém vem para minha casa, o meu território, fazer o que quiser sem que eu lhe dê permissão. No nosso território adquirimos uma superioridade que se esvai quando entramos em território alheio.

Este princípio da posse e do território alastra-se a dimensões mais latas, como, por exemplo, as freguesias. Recordo bem os meus tempos de adolescência, quando, nas festas e nos bodos, chegavam rapazes de outras terras e se punham a namorar as miúdas da nossa freguesia. Normalmente havia rixas e discussões. Alarga-se ainda mais quando falamos de política e de territórios nacionais. Não são admitidas invasões de território, nem por terra, nem por mar, nem pelo ar. A defesa do território nacional é qualquer coisa de sagrado.

Só o dinheiro circula livremente sem cor, sem sabor, sem pátria. O dinheiro e quem o tem. É por isso que as multinacionais, essas empresas bilionárias que se espalham pelo mundo, sugando o dinheiro e a vida às empresas mais pequenas, têm um livre-trânsito que nenhuma lei de posse ou territorialidade consegue contrariar. O mundo é do dinheiro e de quem o tem. Quem é mais rico pode, imperturbavelmente, invadir os espaços do mais pobre, mas o contrário é absolutamente inadmissível. Toleramos que os Estados Unidos invadam o Iraque para defender os seus interesses do petróleo e afins. É absolutamente impensável algum país do mundo invadir os Estados Unidos para defender os seus interesses.

Muitas multinacionais invadiram os nossos territórios e as nossas economias à sombra daquilo a que chamamos lei do mercado, que é, como quem diz, a lei do mais forte. São donas do mundo, mandam e desmandam e as suas ações, em bolsa, decidem o balancear económico do nosso planeta. Países inteiros, mais pobres, sofrem as consequências de uma economia global feroz e pouco sustentável. Esta economia global da invasão é “uma economia que mata”, nas palavras do papa Francisco. Leva à fome, ao esgotamento dos recursos do planeta, numa busca desenfreada de ganhar, ganhar cada vez mais, deixando um rasto de destruição atrás de si. Esticamos a corda até onde podemos, não até onde devemos. E podemos cada vez mais. Podemos destruir o nosso futuro.

O gesto de Cristiano Ronaldo, que desviou duas garrafas da poderosíssima Coca-Cola de cima da mesa, afastando-as da panorâmica do ecrã e substituindo-as por uma garrafa de água, deu brado. Há quem diga que só aquele gesto fez cair a Coca-Cola na bolsa em quase quatro mil milhões de dólares. Há quem diga que essa queda foi apenas uma correção na bolsa. Mas esse gesto mínimo de Ronaldo manifesta toda a frágil insustentabilidade dos nossos modelos económicos. Já tivemos oportunidade de viver, na carne, a crise financeira de 2008 e anos seguintes, com reações em cadeia devastadoras, a partir da falência de um banco. O modelo económico global é um gigante com pés de barro e todos já compreendemos que a política pouco consegue diante da ferocidade do capitalismo desbragado.

Quando não há respeito pela casa alheia tudo ou quase tudo é permitido. Quando não há respeito pelo outro entramos num perigoso caminho sem retorno.

Se a globalização da solidariedade acompanhasse a globalização da economia, certamente o mundo não estava como está. Mas, como dizia fatalmente o padre António Vieira, é sempre o peixe maior que come o mais pequeno.

*Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira do jornal Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.