Na Conversa da Sacristia, em São José, Ponta Delgada, Katia Guerreiro abriu o coração sobre fé, música, medicina e o medo de perder a voz

A sacristia da Igreja de São José voltou ontem a transformar-se num lugar de encontro, reflexão e intimidade. Na 24.ª edição da iniciativa “Conversas da Sacristia”, a convidada foi Katia Guerreiro – médica de formação, fadista por vocação – que deixou muito mais do que respostas; deixou testemunhos de vida, confissões emocionadas e uma profunda reflexão sobre fé, amor e humanidade.
“Nunca há um dia em que eu não sinta a presença de Deus em mim” disse.
Num ambiente marcado pelo silêncio atento da assistência, a fadista explicou que a sua voz “não tem um lugar específico”, porque nasce da alma e daquilo que vive interiormente.
“A minha voz procura essencialmente materializar aquilo que a minha alma sente, vive e pede.”
Ao longo da conversa, Katia descreveu a música como uma extensão da sua espiritualidade. Disse que cantar numa igreja tem um significado diferente e mais profundo.
“Há quem diga que cantar é rezar duas vezes. Quando eu canto numa igreja, não canto duas, canto quatro vezes.”
A artista revelou ainda que a fé nunca esteve separada do seu percurso artístico. Cresceu numa família católica, estudou no Colégio São Francisco Xavier e, apesar de os pais não serem praticantes, procurou sozinha o caminho da catequese, da comunhão solene e do crisma.
Recordou os tempos em que integrou o coro da Igreja Matriz e descreveu essas celebrações como uma verdadeira “missa rock”, com guitarras, órgão, viola baixo elétrica e bateria. Foi também aí que percebeu que a música e a espiritualidade caminhariam lado a lado na sua vida.
Durante a conversa, Katia Guerreiro falou ainda sobre a relação íntima que mantém com as igrejas espalhadas pelo mundo. Confessou que, nas viagens constantes da carreira artística, encontra nesses espaços o abrigo que os quartos de hotel não conseguem oferecer.
“Quando entro numa igreja, eu pertenço ali.”
Entre memórias pessoais e momentos de humor, a fadista revelou um dos seus maiores medos: perder a voz. Recordou um período particularmente difícil, há quase duas décadas, quando acreditou poder estar perante um cancro da laringe. O diagnóstico acabou por ser refluxo gástrico, mas a experiência deixou marcas profundas.
Hoje, aos 50 anos, admite pensar frequentemente no envelhecimento da voz e na inevitabilidade do tempo.
“No dia em que eu começar a deixar de marcar `golos´, vou ser uma mulher triste.”
Ainda assim, prefere viver o presente e continuar a cantar enquanto sentir que consegue emocionar.
Foi nesse contexto que deixou uma das frases mais marcantes da noite:
“A minha maior felicidade era morrer no palco… mas a cantar bem.”
Apresentada como alguém que “nasceu duas vezes” — biologicamente na África do Sul e “para o mundo” em São Miguel — Katia Guerreiro regressou simbolicamente às suas raízes para falar sobre o tema “Voz, Corpo e Lugar”.
A espiritualidade ocupou grande parte da conversa. Questionada sobre a passagem bíblica que melhor traduz a sua visão da vida, respondeu sem hesitar: “No princípio era o Verbo.”
Para Katia Guerreiro, a palavra é sagrada. É através dela que comunica emoções, transmite fé e estabelece pontes com os outros.
“Temos de respeitar muito a palavra, porque uma palavra dita não volta atrás.”
Num dos momentos mais emocionantes da sessão, falou do amor de Cristo como a maior referência da sua vida.
“Essa é a maior história de amor que eu tenho na minha vida.”
A cantora sublinhou ainda que nunca escondeu a sua fé, nem no palco nem fora dele.
“Eu não julgo ninguém que não acredite e também não aceito que me julguem porque acredito.”
Sem recorrer a discursos moralistas, explicou que tenta evangelizar através do exemplo, da ternura e da arte.
“Quando procuro a palavra no sentido da evangelização, faço-o com amor e não para impor.”
No final da noite, entre aplausos e emoção visível no público, ficou a sensação de que a sacristia foi pequena para acolher tudo aquilo que Katia Guerreiro ali deixou: a fragilidade humana, a força da fé e a beleza rara de quem canta — e vive — de peito aberto ao mundo.