Por Carmo Rodeia

O Papa realizou este sábado, dia 6, uma visita privada à terra de São Francisco para celebrar os 800 anos do ‘Perdão de Assis’ e afirmou que a “estrada do perdão pode renovar a Igreja e o mundo”.

Na reflexão que fez sobre o capítulo 18 do Evangelho de Mateus, onde Jesus diz que cada um não deve perdoar até 7 vezes mas até 70 vezes 7, o Papa desafiou os presentes a serem humildes “sinais do perdão e instrumentos da misericórdia” e que

“oferecer o testemunho da misericórdia no mundo de hoje é uma missão  que nenhum de nós pode evitar”.

Até aqui a lição é clara e aprendemo-la bem cedo na catequese. O drama é que cada um de nós pede misericórdia quando é devedor e invoca a justiça quando é credor. E, sinceramente, parece-me que o perdão de Deus é outro: perdoar e fazê-lo sem limites.

Não será fácil. Todos nós sabemos. Porque havemos de perdoar a uma pessoa que nos faz mal? A pergunta fazemo-la todos os dias,  e não vale a pena fingirmos que só os outros é que a fazem. Reconhecer as nossas imperfeições é também tornarmo-nos mais próximos da ideia do perdão de Deus.

Santo Agostinho numa das suas homílias, creio que sobre o Evangelho de João, afirma “ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos”.

É esta liberdade que nos guia ao perdão, porque assenta no amor. No amor para connosco próprios e no amor com os outros.

Tudo o que fazemos é marcado pela nossa frágil condição humana que dita a enorme imperfeição dos nossos atos, atitudes e comportamentos, que temos tanta dificuldade em assumir.

Mas também julgo que não é a perfeição que Deus nos pede. Acho que, sobretudo, ele nos convida a sermos nós próprios, a sermos originais. Acho mesmo que isto é a única coisa que Ele não nos perdoará: não sermos nós próprios, com todas as nossas imperfeições e fragilidades.

O mundo está cheio de gente “perfeita” e “igual”,  que age em função do parecer bem, do que é a norma social e do que é a convenção. Olhando para esta realidade, que entra pela nossa casa dentro diariamente, será que podemos vislumbrar um mundo melhor por isso, sem guerra nem ódios, sem pobres e sem excluídos, sem idosos entregues à sua solidão ou crianças totalmente protegidas e amadas?

Que bom seria porventura termos mais homens e mulheres originais, improváveis mas que estivessem disponíveis para entender a sua imperfeição, viver com ela, compreende-la e, por isso, não julgar o outro porque olhando para si entenderiam, de outra forma, a imperfeição do irmão.

Acho que é a este perdão que Deus nos convida. Mas mesmo não sendo assim, estou certa que Deus me perdoará.

Deus não leu Samuel Beckett mas Beckett andou próximo Dele quando, de uma forma sublime, disse que na vida temos de saber “errar, errar mais, errar melhor”. Afinal no erro encontramos sempre um caminho para perdoar melhor.