Por Carmo Rodeia

“A Misericórdia tem sempre o rosto jovem”.

A frase do Papa Francisco, proferida nas Jornadas Mundiais da Juventude na Polónia, em julho passado, fez-me reler recentemente o livro escrito por outro jesuíta- António Spadaro- “O sonho do papa Francisco – Os jovens no coração da Igreja”, escrito também depois das Jornadas da Juventude do Brasil, onde já se  falava de misericórdia, e sobretudo, da atitude que a igreja deveria ter.

Esta frase poderia ter sido proferida como corolário do Ano Santo da Misericórdia que terminou este domingo. Tal como a juventude e a promessa do amanhã, também a misericórdia é a garantia da presença da igreja no mundo.

O Papa tem este condão: faz com que tudo se conjugue- marca uma assembleia sinodal sobre a relação entre Jovens e Igreja, para outubro de 2018; encerra um Ano Jubilar da Misericórdia e nomeia 17 novos cardeais 13 dos quais, com poder eletivo, vindos das periferias geográficas mas que alteram o peso europeu no colégio cardinalício.

Como é que tudo isto está ligado? Através da frase com que comecei este meu Entrelinhas: à igreja pede-se que seja capaz de mostrar o rosto misericordioso do Pai, sempre com renovada frescura e simplicidade, que muitas vezes, só os jovens são capazes de protagonizar.

Uma vez mais, o sucessor de Pedro mostra como o Espirito Santo o ilumina: de gestos simples mas apaixonados; prudentes mas arrojados e sobretudo apontando-nos um caminho seguro, ciente de que um coração misericordioso tem a coragem de deixar a comodidade, sabe ir ao encontro dos outros, consegue abraçar a todos e ser um refúgio para quem nunca o teve.

Não sermos capazes de o seguir (e infelizmente na maioria das vezes não somos mesmo!) é que nos deve tirar o sono, em vez de nos consumirmos em jogos de poder, de influência ou de vaidades.

Lembro-me que no regresso à diocese, depois de alguns anos ao serviço de outros projectos, o pe Emanuel Valadão, hoje pároco das Lajes, na ilha Terceira, à pergunta que lhe fiz sobre o que é que lhe tirava o sono, com toda a sua simplicidade respondeu-me “O Evangelho e não ser capaz de o viver, testemunhando-O”.

De cada vez que olhamos o Papa Francisco vemos esta insónia permanente que nos deveria contagiar, lembrando-nos que todos os dias são uma oportunidade para dizer presente, com abertura e hospitalidade, com compaixão e com menos azedume e legalismos, e de sermos aquela “Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas” ao invés de “de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”, como o próprio sublinhava no inicio do pontificado.

Não me parece que Deus nos peça muito mais do que isto.

Como refere o livro de António Spadaro, citando o Papa Francisco: uma Igreja que não tenha medo de entrar na sua noite; uma Igreja capaz de encontrar os jovens e com eles a frescura da misericórdia; uma Igreja capaz de se inserir nas conversas do mundo de hoje; uma igreja capaz de ir ao encontro dos discípulos de Emaús, fazendo companhia, indo além da simples escuta, acompanhando na caminhada, pondo-se a caminho connosco e capaz de decifrar a noite que há na fuga de Jerusalém, de tantos e tantas. Em suma uma igreja que dê calor ao coração dos homens.

O resto não faz parte da história. Nunca fez. Basta ver onde e como Jesus nasceu e morreu. Vem aí o Advento. Tenhamos esperança, já que o Natal se veste quase sempre de verde…