“A missão hoje também é urgente em Portugal”- padre Francisco Medeiros

Missionário Comboniano durante mais de duas décadas na África do Sul, o padre Francisco Medeiros defende que a Igreja precisa de recuperar o espírito missionário dentro de portas. Aos 75 anos, acabados de celebrar, o sacerdote micaelense garante que a missão não é apenas partir para longe, mas “saber escutar, acolher e caminhar com os outros”

Foto: Igreja Açores/CR

Durante muitos anos, falar de missão significava partir para África, Ásia ou América Latina para anunciar o Evangelho. Foi esse o caminho seguido pelo padre Francisco Medeiros, mais conhecido como padre Chico, missionário Comboniano, natural dos Fenais da Ajuda (ilha de São Miguel) e criado em Santa Clara, em Ponta Delgada. Ordenado sacerdote em 1979, trabalhou durante 21 anos na África do Sul, país que hoje considera a sua “segunda pátria”, onde realizou três períodos de missão. Mas,  a experiência acumulada ao longo de décadas levou-o a rever a forma como entende a missão.

“Aquela ideia de que íamos ensinar outros coitadinhos, que não sabiam nada de Deus , não é bem assim”, afirma. Pelo contrário, reconhece que recebeu muito das comunidades africanas, sobretudo através da sua vivência da fé.

“A fé deles muitas vezes foi o que me ajudou nos anos que passei lá, sobretudo quando todos enfrentávamos dificuldades provocadas pelo racismo, pela violência de grupos armados e pelas carências de tanta gente”, afirma numa entrevista que vai para o ar este domingo depois do meio-dia, na RTPAntena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra e que ficará disponível em podcast nas plataformas habituais, incluindo no sítio Igreja Açores.

Hoje, o sacerdote considera que o maior desafio missionário pode estar mais perto do que muitos imaginam.

“Nós precisamos de missão aqui em Portugal, aqui nos Açores”, afirma, acrescentando que ser Igreja exige mais do que a participação nas celebrações religiosas.

“Tem de ser uma atitude de um cristão que sabe o que está a fazer, sabe o que está a dizer e sabe aceitar os outros”, salienta.

Para o missionário comboniano, a evangelização não pode ficar apenas nas mãos dos padres ou dos bispos.

“Qualquer cristão, qualquer batizado, deve sentir essa responsabilidade”, defende lembrando que a catequese não pode ser apenas para crianças.

“A catequese de adultos é urgentíssima e, hoje, temos de fazer catequese com os pais, com as famílias. Não digo todas as semanas mas de vez em quando, uma vez por mês os catequistas deveriam preocupar-se com os pais”, salienta o sacerdote que esteve muito tempo na casa dos Combonianos na diocese de Viseu, onde o bispo de Angra serviu até à ordenação episcopal.

O testemunho pessoal, a proximidade às famílias, o acompanhamento dos jovens e uma maior aposta na catequese de adultos são, por isso, algumas das prioridades que identifica para a realidade açoriana e portuguesa.

A vivência missionária na África do Sul marcou profundamente a sua visão da Igreja. Trabalhou em bairros marcados pela violência e pelas tensões raciais, onde muitas vezes os templos funcionavam como verdadeiros refúgios para quem temia pela própria vida.

Apesar do fim do apartheid, admite alguma desilusão com a evolução do país.

“Muitos negros estão a tentar vingar o que passaram e estão a fazer com os brancos o mesmo”, lamenta, sublinhando que os desafios da reconciliação continuam presentes.

Foto: Igreja Açores/CR

Ao longo dos anos, encontrou também comunidades profundamente marcadas pela pobreza, pelas migrações e pela exclusão. Nesses contextos, acredita que a Igreja deve estar particularmente próxima dos mais vulneráveis.

“A nossa Igreja não pode ser uma espécie de tribo. Tem de ser uma Igreja aberta”, sustenta.

A experiência ensinou-lhe igualmente que evangelizar passa, antes de mais, por ouvir.

“Temos de nos conhecer, temos de tentar ir ao nível das pessoas, perceber como querem fazer as coisas, ainda que não seja exatamente como nós queremos. Não é com teologia e imposições que conseguiremos que as pessoas se aproximem de nós”, refere, rejeitando modelos assentes na imposição e defendendo uma Igreja capaz de dialogar com a realidade concreta das pessoas.

Mesmo aos 75 anos, o padre Chico garante que continua disponível para partir novamente em missão. E questionado sobre o que levaria, foi peremptório: “Levaria a boa vontade e a experiência dos outros anos”, afirma, confessando que a África continua a ocupar um lugar especial no seu coração.

No final da entrevista, deixa uma mensagem simples, mas que resume toda uma vida dedicada à missão: “A Igreja tem de ser assim. Todos missionários para ser Igreja, porque a Igreja começa do lado de fora da porta, na rua.”

A entrevista ao padre Francisco Medeiros será transmitida no próximo domingo na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra, ficando posteriormente disponível em podcast nas plataformas habituais.

A congregação dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus – MCCJ – foi fundada por S. Daniel Comboni a 1 de Junho de 1867, em Verona.

No início era constituída por sacerdotes e leigos de diversas nacionalidades, sem votos religiosos. Em 1885, o instituto foi transformado em congregação religiosa, tendo recebido o nome de Filhos do Sagrado Coração de Jesus. As primeiras Constituições foram aprovadas em 1910, as quais estabeleciam como finalidade do instituto a “conversão dos povos da África Central e de outros povos que fossem confiados ao Instituto como finalidade da Congregação”, pode ler-se na sua página online.

O instituto conheceu o período de maior expansão na Europa após a II Guerra Mundial, aceitando também campos de trabalho no continente americano. Em 1988, obedecendo aos apelos da Ásia, os Combonianos enviaram para as Filipinas o primeiro grupo de cinco missionários.

Os Missionários Combonianos chegaram a Portugal em 1947. A primeira casa foi construída em Viseu. Seguiram-se as de V. N. de Famalicão, Maia, Lisboa, Coimbra e Santarém.

Os Combonianos portugueses são 93: 70 padres e 23 irmãos. Em Setembro de 2010 assumiram o cuidado pastoral das paróquias de Camarate e Apelação, situadas no concelho de Loures, às portas de Lisboa.

Editam as revistas Além-Mar e Audácia e o jornal Família Comboniana, dedicam-se à animação missionária das igrejas locais, à pastoral juvenil e à promoção de vocações.

A 1 de Janeiro de 2011, os Missionários Combonianos no mundo eram 1639, dos quais 20 são bispos, cerca de 1236 padres, 255 irmãos e 128 professos com votos temporários. Estes membros são oriundos de 33 nações, estando presentes em 30 países de quatro continentes.

(Informação da Congregação retidada da página online (https://www.combonianos.pt/quem-somos/missionarios-combonianos/)

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