Por Carmo Rodeia

Li há dias a entrevista feita pelo correspondente do La Croix Internacional (no Vaticano) ao cardeal do Luxemburgo, Jean Claude-Hollerich, que tive a oportunidade de entrevistar este verão em Fátima. Já partilhei no facebook a tradução que foi disponibilizada pela Arquidiocese de Braga e, de facto, é uma entrevista imperdível do relator geral do Sínodo dos bispos.

Voltei a ficar entusiasmada com o que li tal como tinha ficado em agosto quando o ouvi em Fátima, numa entrevista que naturalmente estava mais centrada no Santuário e na Mensagem de Fátima, sobretudo no que ela pode hoje constituir como itinerário de espiritualidade para cada um no mundo em que vivemos.

A entrevista do cardeal Hollerich é importante por aquilo que defende e, sobretudo, pelo olhar discernido que nos apresenta sobre o mundo em que vivemos e os desafios que nos são colocados, partindo de uma premissa que me parece não só interessante como pertinente para a reflexão dentro da Igreja sobre as razões pelas quais os bancos das nossas igrejas estão vazios, envelhecidos e pouco comprometidos.

Diz o cardeal luxemburguês que, basicamente, as pessoas não acreditavam mais do que acreditam hoje, mesmo que fossem à igreja em maior número do que vão hoje. Antes tinha-se uma espécie de prática cultural dominical, regular, mas não era inspirada na morte e ressurreição de Jesus. Acresce, diz o presidente do organismo europeu da Igreja que reúne todas as conferências episcopais do velho continente, que ainda continuamos à procura da felicidade, que ainda não encontramos. E por isso, ainda temos “sede de infinito e esbarramos nos nossos próprios limites”.

“Cometemos injustiças que têm sérias consequências para outras pessoas, a que chamamos de pecado. Mas agora vivemos numa cultura que tende a reprimir o que é humano. Esta cultura de consumo promete satisfazer os desejos humanos, mas não o faz. No entanto, em momentos de crise, de choque, as pessoas percebem que há toda uma série de questões adormecidas nos seus corações”, esclarece ainda o cardeal.

Ou seja, continuamos a procurar Deus, mas que Deus procuramos efetivamente; procuramos espiritualidade mas a onde a encontramos? Quando vemos jovens a procurar em correntes new age a satisfação dos seus apetites espirituais vemos que a Igreja já não responde às suas inquietações. O mundo ainda está à procura, mas não está mais a olhar na nossa direcção, e isso dói, reconhece o cardeal que, no momento seguinte, adianta uma proposta: “devemos apresentar a mensagem do Evangelho de tal forma que as pessoas se possam orientar para Cristo”.

No fundo, o que o cardeal diz, e tem razão, o problema não é da mensagem mas do mensageiro.

E, prossegue o cardeal Hollerich: “Acho que mesmo que não seja necessariamente consciente, a Igreja tem a imagem de uma instituição que sabe tudo melhor do que as outras” e exemplifica. “Sou totalmente contra o aborto. E, como cristão, não posso ter uma posição diferente. Mas também entendo que há uma preocupação com a dignidade da mulher, e o discurso que tínhamos no passado de oposição às leis do aborto já não é ouvido. Então, que mais podemos fazer para defender a vida? Quando um discurso já não tem peso, não devemos ser obstinados em usá-lo, mas procurar outros caminhos”. E os exemplos do cardeal continuam em relação às mulheres, que devem ter um papel central na vida da Igreja; à moral sexual da Igreja, nomeadamente no que se refere à questão do celibato dos sacerdotes, que embora lhe mereça simpatia não pode ser imposto ou em relação à necessidade dos leigos- homens e mulheres- serem decisivos na formação dos futuros sacerdotes, nos seminários.

Na linha do que o Papa tem defendido Jean Claude-Hollerich não põe em causa nenhum dogma de fé mas aponta o dedo a um certo autismo de que ainda padecemos e recomenda-nos a humildade própria do Evangelho, que é a única medida necessária para um verdadeiro diálogo e sentido de escuta.

Numa altura em que vivemos uma progressiva secularização da vida, acelerada pelos efeitos da pandemia do Covid-19, pastores como estes são necessários para nos ajudar a construir uma igreja assente na fé, mesmo que sejamos uma minoria.

Vivemos numa época em que, infelizmente, se calhar, não existe mais o grande ateísmo nem a grande profecia. Mas, também não existe mais o grande pensamento, seja ele negativo ou positivo, nem as grandes figuras. A nossa é uma época em que dominam a indiferença, a superficialidade, a banalidade. Vivemos no mainstream, até na Igreja. Nada há de mais tormentoso do que o cinzentismo. Só mesmo o cinzentismo pretensioso,  que nos faz achar melhores do que os outros. Assim, nunca conseguiremos dialogar. Pior, ainda, não conseguiremos sequer fazer perguntas…