Por Tomaz Dentinho

“A irmã Terra clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou”; é assim que começa a Carta Encíclica sobre o cuidado da casa comum recentemente publicada pela Santa Sé. O recado é claro e bem fundamentado ao longo de 87 páginas e 172 referências: a Terra que Deus criou para nós está mal por nossa causa. E se a culpa é nossa cabe-nos ganhar consciência dos males e pecados da nossa irresponsabilidade e pedir a Deus para que nos ajude a emendá-los.

O Papa Francisco dá-nos uma ajuda nesse exame de consciência. O que está a acontecer com a uma economia geradora de produtos descartáveis e promotora da delapidação cumulativa dos solos e aquíferos, dos oceanos e da atmosfera e que cria situações de catástrofe nos países e regiões mais pobres? O que se passa com os valores que destroem a biodiversidade e desrespeitam os que a vivem? Como aceitar cidades sem qualidade de vida e desiguais? Como conviver com a fraqueza de reacções e a cacofonia de opiniões? As respostas reportam para os ensinamentos dos Evangelhos que apontam para o destino comum dos bens e na encarnação de Jesus. E justificam a raiz humana da crise ecológica, nossa culpa porque a perspectiva é apenas centrada na economia e na tecnologia, que idolatram objectivos de crescimento e inovação, e esquecem as vertentes do ambiente e dos valores. Porque a ecologia não é considerada de forma integral, desintegra as dimensões ambientais, económicas, sociais e culturais, distancia-se da vivência do quotidiano e evita uma abordagem comunitária e inter – geracional do meio circundante. Finalmente porque se falha sistematicamente nas ações de Governância internacional, se perde visão de longo prazo nas políticas nacionais e locais e se evita o diálogo com a plenitude humana e a interlocução entre religiões e a ciência. Em suma porque a Educação é feita sem espiritualidade ecológica seguidora de Maria, Rainha da criação. Resta, como sempre, a Oração pela nossa Terra que é o mesmo que querer crer para criar bem.

Julgo que a Encíclica “A Nossa Casa Comum”, se calhar como todas as encíclicas, é fundamentalmente um conjunto grande de desafios. Um desafio para as universidades orientadas para a economia e tecnologia; para que passem a integrar nos seus cursos e de forma integrada as vertentes do saber ligadas aos valores e ao meio ambiente. Sim, nos cursos de Economia e de Engenharia falar de Deus e de Natureza para que as análises que façam e as medidas que proponham não sejam tão míopes e erróneas. É também um desafio aos sistemas de poder democráticos e aos outros; para que estimulem os políticos a propor medidas sustentáveis no longo prazo. É um desafio para as ideologias que esqueceram Deus e cujas soluções desconstroem e destroem a realidade. É certamente um desafio para a comunicação social que vai sempre com as outras em busca de audiências fugazes e distraídas. É finalmente um desafio à Oração criadora de uma terra melhor.

A primeira coisa que fiz foi enviar o texto para os alunos de mestrado em gestão e conservação da natureza. Para o ano que vem vai certamente fazer parte dos textos de leitura obrigatória. É nesse quotidiano que a educação para a criação sustentável recomeça.