Por Renato Moura

A Grécia tem enfrentado problemas enormes, mas o que consegue fazer depressa é convocar eleições e formar governo. Em Portugal tudo parece muito organizado e regulamentado, mas um processo eleitoral gasta meses. Desta última vez mais do que o habitual, apesar do Presidente da República ter anunciado que estava tudo estudado e previsto. E nem assim a solução final convenceu todos.

As declarações partidárias geraram polémicas e os ânimos incendiaram-se. Quando a paixão ultrapassa a razão, lembramo-nos das piores claques de futebol!

Ouviu-se de tudo: primeiro-ministro (vírgula) não eleito; dizer “chefe” para não reconhecer primeiro-ministro; apelidar de “tralha” um governo; alcunhar de “geringonça” um acordo parlamentar e até defender a mudança apressada da Constituição para permitir mudar de governo (oxalá um dia não se faça como em Myanmar, onde uma revisão constitucional impediu que Suu Kyi, líder da oposição e do LND que venceu as eleições, se torne presidente por ser casada com um cidadão estrangeiro e ter filhos estrangeiros!). Anunciou-se “uma almofada financeira de dimensão substancial”. Também se assegurou: virar a página da austeridade; não vender ilusões; não apresentar quimeras; propostas cuidadosamente medidas; e já se antecipa que o défice talvez não se contenha nos limites.

De um lado agoirou-se a certeza de breve queda do Governo; do outro prometeu-se segurança para quatro anos. De um lado desgraça inevitável, do outro sucesso garantido.

Será minimamente aceitável que um Presidente da República, garante do funcionamento das instituições, pressupostamente fora da luta partidária, se permita dizer, em pleno acto de investidura, que dá posse a um governo só por não ter outra solução?! Ou que um deputado desacredite o Governo do seu país na Europa?!

Alguns comportamentos dos mais altos dirigentes políticos fazem-me desejar aquilo que me diziam constar dos antigos regulamentos militares “as praças devem saber ler e escrever, pois que os seus oficiais poderão não sabê-lo”.

É evidente que qualquer Governo pode não durar quatro anos e o anterior só evitou a queda forçosa pela demissão “irrevogável” de Paulo Portas, mediante a respectiva promoção a vice-primeiro-ministro. Não será mais construtivo não ser profeta da desgraça, dar o benefício da dúvida e esperar para ver as consequências?

Há demasiados enjoados de promessas de vingança, exaustos da discussão, fartos de política.

Pensemos que Jesus ensinou “Todo o reino, dividido contra si mesmo, será devastado”.