“A paz de Cristo não tem armas e é exigente para cada um de nós”- Padre Paulo Duarte

Sacerdote jesuíta, pregador do tríduo preparatório da Festa do Senhor Santo Cristo que começa na sexta-feira, propõe caminho exigente mas único para que a paz seja uma realidade

Foto: Agência Ecclesia

O padre Paulo Duarte afirmou que “a paz de Cristo não tem armas” e exige um profundo trabalho interior, numa entrevista concedida ao sítio Igreja Açores, a propósito da pregação do tríduo preparatório da festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que tem início esta terça-feira, em Ponta Delgada, às 18h00.

O sacerdote, que integra a Rede Mundial de Oração do Papa, sublinha que a mensagem central das celebrações  terá por base as leituras do dia, mas proporá sempre a vivência de uma “paz desarmada e desarmante”, inspirada no Evangelho e reforçada pelo apelo do Papa Leão XIV.

“Não é apenas ausência de conflitos. É uma paz que renuncia ao poder, às armas e às defesas”, afirmou, destacando que esta proposta cristã se torna particularmente desafiante num mundo marcado por guerras, tensões e interesses globais.

Ao longo da entrevista, o pregador insiste que a construção da paz começa no interior de cada pessoa.

“Se eu não estou bem comigo próprio, inevitavelmente vou levantar defesas, fazer projeções e provocar conflitos”, explicou, defendendo a necessidade de um caminho espiritual sério, capaz de enfrentar “as zonas sombrias” da vida humana. Este trabalho interior, acrescenta, tem impacto não só individual, mas também social e até político.

A reflexão do padre Paulo Duarte é fortemente marcada pela espiritualidade inaciana, inspirada em Inácio de Loyola. Referindo os Exercícios Espirituais, o sacerdote descreve um percurso que passa pelo reconhecimento do amor de Deus, pela descida às próprias fragilidades e pela experiência de reconciliação.

Na primeira semana dos Exercícios Espirituais, Inácio de Loyola convida, numa linguagem própria do século XVI, a “descer aos infernos”.

“Hoje, esta expressão pode ser entendida como um apelo a entrar em contacto com as nossas zonas mais sombrias, aquelas que, mesmo sendo discretas, podem causar dano a nós próprios e aos outros. Trata-se de uma travessia exigente e dolorosa, porque confrontar essas fragilidades não é fácil”, afirma.

Por isso, prossegue, “a tendência humana é evitar esse confronto, tentando controlar ou projetar no exterior aquilo que não queremos reconhecer em nós”.

No entanto, “é precisamente ao fazer esse caminho mais profundo que se torna possível encontrar o perdão e a reconciliação, enraizados, antes de mais, na experiência da misericórdia. E essa descida não é feita em solidão: é realizada com Cristo crucificado, aquele que atravessou a morte e venceu as trevas, abrindo caminho à redenção” afirma.

“Se não fizermos essa travessia, que é dolorosa, não encontramos a paz”, afirmou.

Neste contexto, destaca também os conceitos de liberdade interior e discernimento como fundamentais. Segundo o pregador, a proposta de Cristo contrasta com a lógica dominante do poder e da competição: “Hoje parece que, para eu ter lugar, o outro tem que ser eliminado. Isso não traz paz, traz conflito”.

A imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, associada ao “Ecce Homo”, Cristo humilhado e sofredor, surge como ícone dessa paz desarmada. Para o sacerdote, trata-se de “um retrato de quem não procura conflito, mas se entrega totalmente”, convidando os fiéis a um despojamento semelhante.

“Ser pobre não é ser miserável é , antes de mais, ser despojado e muitas vezes é esta noção de desapego que nos falta”, refere.

Sobre a forte devoção popular associada à festa, o padre Paulo Duarte alerta para o risco de reduzir estas vivências a momentos pontuais.

“Estes dias não podem ficar no acontecimento. Têm de transformar a vida”, afirmou, defendendo uma continuidade espiritual que vá além das celebrações e leve a uma verdadeira conversão pessoal.

O sacerdote sublinha ainda a importância do diálogo e do encontro autêntico entre pessoas, ecoando ensinamentos do Papa, como os presentes na encíclica Fratelli Tutti, de Papa Francisco.

“Precisamos mais de conversas do que de debates. Conhecer o outro como pessoa, não como etiqueta”, referiu.

Num tempo em que proliferam diversas propostas espirituais, o padre Paulo Duarte aponta o caminho cristão como uma experiência de transformação profunda, centrada na relação com Cristo.

“Não é algo mágico nem momentâneo. É um processo contínuo, que exige silêncio, escuta e acompanhamento”, explicou.

O tríduo preparatório da maior festa religiosa dos Açores inicia-se assim com um forte apelo à interioridade, à reconciliação e à vivência concreta de uma paz que, como sublinha o pregador, “vai muito além da simples ausência de conflito”.

A festa propriamente dita começa na sexta-feira e será presidida nos seus dois maiores dias pelo cardeal D. António Marto, bispo emérito da dioceese de Leiria-Fátima. O tema da festa deste ano está centrada na pergunta feita pela Diocese no seu projeto Pastoral “Cristão, que dizes de ti mesmo”, com um enfoque particular na Paz.

Ponta Delgada prepara-se para as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres

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