Por Carmo Rodeia

Lembro-me do momento em que o Papa Francisco foi eleito e se assomou à janela, em São Pedro. Estava a `vê-lo´ nas ondas da rádio, na TSF, numa narrativa comentada pelo Manuel Vilas Boas e por vários comentadores que iam sendo ouvidos naqueles momentos a seguir ao fumo branco e ao anuncio do seu nome. Dentro do carro, entre as inúmeras viagens em que fazia de motorista dos meus filhos, entre Ponta Delgada e Santo António além Capelas, onde treinavam uns pontapés na bola com o mesmo entusiasmo com que o Papa via os jogos do San Lorenzo, eis que surge um papa do fim de mundo, como ele próprio se apresentou. O seu primeiro gesto, pedindo que lhe concedessem uma bênção, foi talvez a marca de uma nova proximidade diferente da de todos os seus antecessores e que ditou indelevelmente, todo o seu percurso daí para a frente. Na relação com a igreja mas também na relação com o mundo.

Há um ditado popular que repito frequentemente e que acho que se adapta perfeitamente aos tempos de hoje, em que uma imagem e um gesto valem mais do que mil palavras, por mais profundas que sejam: nunca há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão e este Papa ultrapassou todas as expetativas.

Primeiro, não é europeu, é latino-americano e isso faz a diferença. Ele vê o mundo a partir da América Latina e nós estamos habituados a ver o mundo a partir da Europa e com as lentes próprias de um certo eurocentrismo.

Em segundo lugar, vê a Igreja a partir dos novos continentes, e não a partir da Europa  e nós estamos habituados a ver a Igreja Católica eurocêntrica, quando já nada o autoriza.

Depois, é um bispo, nunca deixou de ser um bispo, e um bispo que faz lembrar um bocadinho o prior da paróquia, que está permanentemente ligado à sua comunidade, que “cheira às ovelhas” e que transportou essa maneira de ser para a diocese e para a cadeira de Pedro. Um pastor todo-o-terreno, que tanto sai do papamóvel para cumprimentar as pessoas como decide entrar numa farmácia para comprar uns sapatos ortopédicos. Um homem do tempo que vive, centrado num ministério da simplicidade bem à maneira de Jesus de Nazaré.

As questões sociais têm sido fundamentais e tem procurado fazer uma pastoral muito directa, muito prática, mas igualmente inteligente e eficaz. Porque é uma pastoral do encontro, do acolhimento, da escuta e da ternura do coração, tão própria da verdadeira igreja de Jesus Cristo.

Da “economia que mata” à afirmação de uma paternidade responsável porque “as mulheres não são como as coelhas”, sem esquecer a necessidade de uma boa administração da Casa Comum, “que não é nossa e da qual somos apenas administradores”, foram alguns dos tópicos do seu pontificado, centrado no essencial da igreja que é a ação social em favor dos pobres e dos mais fracos, a oração, a conversão e um verdadeiro encontro com Deus.

Em 48 meses,  o Papa argentino fez 17 viagens internacionais e ainda 12 visitas na Itália, incluindo uma passagem pela ilha de Lampedusa; Fátima vai receber Francisco a 12 e 13 de maio, na primeira grande celebração do Centenário das Aparições.

Entre os principais documentos do atual pontificado estão as encíclicas ‘Laudato si’, dedicada a questões ecológicas, a ‘Lumen Fidei’ (A luz da Fé), que recolhe reflexões de Bento XVI, e as exortações apostólicas ‘Evangelii Gaudium’ (A alegria do Evangelho) e ‘Amoris Laetitia’ (A alegria do amor).

Francisco arrisca-se a ser o Papa que reconciliou corações, aproximou ovelhas do rebanho, esculpiu pontes de diálogo e fez-se ao caminho, ao encontro dos outros- desfavorecidos, mendigos, refugiados ou perseguidos.

Dizem os homens da igreja que o Espírito Santo atua sempre.

“Por favor, continuem a rezar por mim”, pode ler-se junto da fotografia que evoca a primeira aparição pública do Papa, a 13 de março de 2013, no momento em que se inclina diante da multidão na Praça de São Pedro e que ontem, dia de aniversário, foi publicada as redes sociais.

Acredito e defendo que o esforço da Igreja hoje, mais do que nunca,  deve ser o de se tornar o canal do encontro entre a misericórdia de Deus e o homem de hoje, na sua realidade concreta, nas suas alegrias e nas suas dores, nas suas certezas e também nas suas fraquezas e nas suas dúvidas.

Francisco é cada vez mais o homem do leme, por mais que tentem nega-lo. Pode até nem conseguir fazer as reformas que muitos esperariam, mas já conseguiu a principal reforma que é a do coração, colocando a igreja como o grande lugar de acolhimento, independentemente das circunstâncias de cada um. É uma conquista inestimável.