Por Carmo Rodeia

À distância vivo o cheiro das açucenas. Para quem não conhece, nem o cheiro (inconfundível) nem a flor, lembro apenas que ela é branca, com um olho amarelo e cai de forma bambeada sobre o seu caule verde. Reza a tradição que os cristãos costumam plantar três açucenas no mesmo vaso para simbolizar a Santíssima Trindade, porque uma açucena nunca nasce sozinha e cada pé pode tem quase sempre três flores. Deitam um cheiro perfumado intenso. Habitualmente são usadas para ornamentar os altares onde ficam as coroas do Espirito Santo nestes dias da festa, que vai desde o primeiro domingo a seguir à Páscoa até ao domingo da Trindade, no próximo fim de semana.

O cheiro das açucenas, que inunda o quarto mais nobre da casa, que recebe as insígnias do Divino até á hora da partida para o império e daí para a coroação, mistura-se com o da despensa do Espirito Santo, onde a carne, o pão e o vinho aguardam pelo dia das esmolas que hão de ser distribuídas por quem delas precisar, numa abundância memorável.

Nos Açores o domingo de Pentecostes é o dia mais longo e mais partilhado do ano. Em torno do Império reparte-se o pão mas também a alegria, entre conversas trocadas e vidas revistas.

Só quem é açoriano ou se deixou afogar nas águas profundas da açorianidade, consegue perceber a dimensão e o significado deste culto que é alimentado pela devoção do povo que o perpetua onde quer que haja um de nós.

Também na minha casa, amanhã se comem as tradicionais sopas do Espírito Santo. Não tenho império físico, mas levanta-lo-ei a partir da minha copeira improvisada e partilharei, em família, a festa que todos nós celebramos. A sala será o terreiro e diante das insígnias cantaremos e louvaremos ao Senhor como  se canta no salmo 146, que Ele fez o Céu e a terra, libertou os oprimidos e reparte o pão pelos mais pobres.

Na palavra de Deus, a vinda do Espírito sobre o coração dos homens, que assinalamos no Pentecostes, chega-nos por quatro vias: no Evangelho vem como a presença que consola; nos Atos dos Apóstolos vem como energia e coragem para vencer todos os medos; na primeira carta de São Paulo, vem como dom para todos os cristãos independente da circunstância de cada um e, chega-nos ainda através do Salmo.

Seja como for há algo comum a todas estas narrativas: a chegada do Pentecostes desbloqueou a vida. As nossas vidas. Ao enviar o Seu Espírito, derramando-o sobre todos os corações, num ato de caridade diante do abandono, do medo e da fragilidade, Deus diz-nos que devemos deixar-nos contagiar por este Espírito e partirmos em missão. Como se nos estivesse a dizer para caminharmos no meio da multidão seguindo os seus passos, tal qual Jesus nos ensinou na sua curta passagem pela terra ; que não nos desviemos do caminho nem nos deixemos abater pelo desânimo, vencer pelo comodismo ou capitular perante a injustiça.

Na homilia da missa vespertina de Pentecostes, celebrada no Vaticano, no sábado, o Papa desafiou os cristãos a estarem atentos aos gritos de dificuldade que brotam da sociedade, dos seus meios e das comunidades.

“Trata-se de abrir os olhos e os ouvidos, mas sobretudo de abrir o coração, de escutar com o coração. Só assim nos poderemos pôr a caminho, só assim sentiremos dentro de nós o fogo do Pentecostes”, apontou Francisco. O Papa frisou que o Espírito Santo de Deus é não só fogo mas também “água viva que lava e fecunda a Igreja”.

E, ainda, acrescentou: “Quanto eu gostava que as gentes de Roma reconhecessem na Igreja, que reconhecessem em nós a misericórdia de Cristo Ressuscitado, a sua humanidade e ternura, de que tanto precisam”, alertando para os projetos humanos que muitas vezes “estão ao serviço de um Eu cada vez maior”, que buscam chegar ao céu mas “a um céu onde não há um espaço para Deus”.

Olhamos em volta e vemos com frequência esse espaço, quando vemos crianças abandonadas e abusadas; quando vemos que há famílias que não têm dinheiro para colocar o pão na mesa para os filhos; quando se gastam milhões em obras que apenas alguns usufruem… Poderia continuar mas corria o risco do artigo ficar longo de mais. Por isso, guardo as últimas linhas para pedir de empréstimo as palavras do Papa Francisco na referida homilia:  “Se o orgulho ou uma presumível superioridade moral não nos toldarem os ouvidos, perceberemos que o grito de tantas pessoas hoje não é mais do que um autêntico grito do Espírito Santo”. Mas o orgulho digo eu, e a arrogância do homem teimam em tornar-nos surdos, com o devido respeito para os que não ouvem, mas sentem com o ouvido do coração.