A vida não pode ser só isto

Por Carmo Rodeia

Dito assim até parece que vou fazer um manifesto contra o atual modo de vida. E se calhar teria razões para isso. Bastava inspirar-me na minha própria vida para dizer, com alguma propriedade e sobretudo um necessário sentido critico, que a vida não pode ser só isto: ser uma continuidade em que estamos sempre ligados, sempre metidos no trabalho, sempre disponíveis para produzir mas amorfos em relação a tudo e a todos que extravasem o nosso pequeno mundo. Precisamos de alternância. Precisamos de alternativa. Não da política mas da nossa maneira de exercer a cidadania.

Quem me conhece e se tiver paciência de estar a ler isto dará uma boa gargalhada e dirá: o que aconteceu? O mundo estará para acabar ou ela passou-se de vez?

Não… também poderia estar a dizer isto em voz alta como processo de auto convencimento mas não, estou a referir-me, concretamente, ao estado que vivemos em Portugal e no mundo.

A indiferença tomou conta da normalidade e hoje tudo parece ser normal porque as pessoas estão-se nas tintas para tudo. Perderam o sentido critico, a noção entre o bem  e o mal e, na escala de valores, tudo é possível desde que seja feita a vontade de cada um ou pelo menos qualquer coisa lá perto.

Já ninguém parece ter vontade de esbracejar e dar estatuto à indignação.

Vejamos o mais recente caso: as vitimas de Pedrogão. Já não bastava a tragédia; o facto de um mês depois a generosa solidariedade nacional ainda não ter chegado aos seus destinatários senão agora andarmos a discutir os números das vitimas, quando o que devíamos estar a discutir era a questão de fundo sobre porque é que o país arde e continua a arder, o que foi feito desde Pedrógão quase um mês e meio depois, que medidas foram tomadas para que os incêndios não continuem a abrir os noticiários, etc, etc.

Não, estamos a assistir a um debate na praça pública sobre se o número de vitimas consegue ainda ser mais escandaloso do que o inicialmente avançado pelas autoridades, com a oposição a tentar cavalgar num terreno onde o que deveria ser falado e questionado é a falta de apoio a todas as vitimas e seus familiares; ao facto do Ministério Público  invocar o segredo de justiça para não divulgar a lista dos óbitos (atitude pouco compreensível, aliás) e o primeiro ministro e o governo a manifestarem uma ausência total de estratégia e de capacidade para lidar com esta situação que é grave porque mexe com funções de soberania. E estas cabem ao Estado e o estado é defendido, ou devia ser, pelo Governo.

Há muito que já não há canções de amor, mas também parece que deixou de haver de intervenção.

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