D. João Lavrador recorda que a dignificação da pessoa nunca pode passar pelo caminho da morte

O bispo de Angra afirma que ao Estado e à sociedade compete a defesa da vida e não da morte, que nunca é um caminho quando se trata de dignificar a pessoa humana.

Num artigo sobre a Eutanásia, que será publicado este domingo, no inicio da Semana da Vida, num dossiê especial no qual o sítio Igreja Açores partilhará, ao longo da semana, uma série de artigos de opinião sobre a temática que vai estar em discussão no parlamento no próximo dia 29 de maio, o prelado açoriano é peremptório na exaltação da inviolabilidade do direito à vida, cuja defesa tem de ser garantida pelo Estado e pela sociedade.

“Pertence ao Estado e às diversas organizações da sociedade a defesa e a promoção da vida e não o contrário. Mais ainda, quando a vida está mais débil maior proteção exige de modo que o que falta à pessoa lhe seja dada pela sociedade, desde a família até às diversas instituições” afirma o bispo de Angra.

“Argumentar com a liberdade ou autodeterminação pessoais face ao dispor sobre a vida choca com o que deve ser o exercício destes valores na sua inter-relação com a verdade, com o bem, com o amor e com o sentido pleno da existência humana que deve encarar também o enigma do sofrimento” acrescenta, sublinhando que a dignificação da pessoa passa pela defesa da vida e não da morte.

“Quando se quer dignificar a pessoa humana nunca se poderá ir pelo caminho da morte que já não tem retorno, mas pelo contrário, teremos de lançar-nos no caminho da vida que terá de ser percorrido em conjunto, de mãos dadas e, então, reconheceremos que o sofrimento se integra no itinerário da vida” afirma no texto.

Sobre o momento escolhido pelo parlamento para debater a eutanásia, o responsável pela diocese de Angra também é crítico.

“A humanidade de hoje, no contexto de oportunismos políticos e de conveniências sociais e económicas, perdeu a referência a uma razão forte capaz de nortear a pessoa humana no verdadeiro sentido da vida que se deve integrar numa civilização do amor, limitando-se a ceder a uma cultura da morte e do vazio”, esclarece.

D. João Lavrador afirma, ainda, que a vida humana “é um dom que cada pessoa recebe sem que para isso lhe tenha sido perguntado sobre a sua vontade”. E, como tal, “é um valor fundamental e fundante de todos os outros valores”.

“Não se poderia referir a verdade, o bem, o belo, o amor ou a liberdade, se estes não se alicerçassem na vida e não concorressem para a dignificar” frisa, destacando que num momento de fragilidade, o que “se exige e a atenção redobrada”.

Por isso, “criar condições familiares, promover instituições de acompanhamento das pessoas que necessitem de maiores cuidados e intensificar os cuidados paliativos, a nível médico, são exigências de uma sociedade que se queira pautar pelo verdadeiro humanismo”.

Na sua reflexão sobre este problema que vai estar em destaque nas iniciativas pastorais da igreja durante toda esta Semana da Vida, o prelado lembra que “o sofrimento humano é um grito de vida, a clamar perante a sociedade que ajude alguém a viver e nunca é um pedido de morte”.

“A missão do profissional de medicina é procurar continuamente os meios mais aptos para valorizar, defender e promover a vida. Nunca se poderá colocar ao serviço da morte e para criar melhores condições no alivio ao sofrimento. A morte acontecerá de maneira natural”.

Para este “combate” à eutanásia a Igreja acaba de fazer um milhão e meio de folhetos que vão ser distribuídos em todas as dioceses e paróquias de Portugal clarificando o que está em causa na eutanásia.

Os bispos de Aveiro, Viseu e Aveiro já tornaram públicas as suas objeções à iniciativa parlamentar.

“Espera-se muito da responsabilidade ética dos nossos deputados”, disse o prelado do Porto, que espera que a decisão a tomar não seja fruto de “uma pretensa modernidade que outra coisa não é do que o regresso ao pior dos passados”.