Em entrevista ao IA lembra que votar “é um direito e uma obrigação”

O padre José Júlio Rocha considera que as eleições presidenciais deste domingo poderiam e “deveriam” ter sido adiadas mas, não o tendo sido, todos devem exercer o seu direito, que é ao mesmo tempo um “dever de cidadania”.

Em entrevista ao programa de rádio Igreja Açores, que vai para o ar este domingo (embora a entrevista tivesse sido gravada na sexta-feira, dia 22 de janeiro), o sacerdote interpela os cristãos dizendo-lhes que é “uma obrigação votar”.

“Como assistente da Comissão Diocesana Justiça e Paz e como cristão é meu dever convidar as pessoas a irem votar. O voto é um direito e um dever. O Presidente da República tem como principal missão garantir e fazer cumprir o espírito da Constituição, que é a Lei fundamental do nosso país. Em consciência, devemos escolher aquele em quem confiamos para o fazer”, refere o sacerdote.

“Mesmo em tempo de pandemia é preciso sair, votar e não ter medo, respeitando todas as regras em vigor:  máscara, caneta própria, distanciamento  físico, higienização das mãos. Ninguém deve ficar em casa” sob pena de cairmos “numa aberrante abstenção que pode ter influência no próprio sentido do voto”.

O sacerdote lamenta ainda não se ter apostado no voto eletrónico.

Nesta entrevista, que vai para o ar depois do meio-dia no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores, o assistente da Comissão Diocesana Justiça e Paz comenta a eleição e a tomada de posse de Joe Biden e Kamala Harris, nos Estados Unidos onde reside uma importante comunidade açoriana, da costa leste à Oeste, qualificando o momento como o do regresso a uma normalidade democrática a que a América habituou o mundo.

“Os Estados Unidos são o garante daquilo a que chamamos Democracia e apesar de nem sempre concordarmos com algumas das opções políticas e sociais dos norte americanos  esta eleição  repõe a hipótese de diálogo político , o respeito pelo outro e pela diferença, que são a base de qualquer estado de direito”.

“Os últimos 4 anos foram os mais tristes da história dos Estados Unidos e culminaram no ataque às colinas do Capitólio. Foi um ataque à Democracia que só me fez lembrar a noite de Cristal, em 1938 quando os judeus foram mortos e os seus negócios destruídos”, destaca o sacerdote sublinhando a normalidade com que alguns alemães encararam, na altura,  estes episódios que acabaram por ser o pronuncio do Holocausto e da `Solução Final´.

“Olhar para o que aconteceu no Capitólio, como se de alguma normalidade se tratasse e desvalorizar  o que ali se passou é perigoso”, denota apelidando o trumpismo de uma espécie de “fascismo democrático”, isto é, “há eleições, vive-se numa aparente democracia mas há o culto a um líder, idolatria mesmo, um seguidismo e uma crença absoluta em tudo o que ele diz e faz”.

O sacerdote recorda que Joe Biden é o segundo presidente católico na história da América e que isso deveria ser valorizado; não porque estejamos à espera de recolher dividendos ou privilégios, mas porque “como cristão, católico, será um homem do diálogo, da escuta e da busca de consensos”.

“O seu espírito de católico e de cristão humanista vai influenciar a sua presidência”, reitera.

O colunista do Igreja Açores, que é professor de Teologia Moral, nesta entrevista, que pode ouvir aqui nesta página, fala ainda do Motu Proprio assinado pelo Papa Francisco sobre a instituição das mulheres nos ministérios de leitor e acólito. Além de reconhecer que se trata de institucionalizar o que já era uma prática, o padre José Júlio Rocha refere o simbolismo desta alteração ao cânone 230 do Código de Direito Canónico, que vem dar mais robustez ao estatuto laical das mulheres.

“Tendo em conta que 70% de quem participa na igreja são mulheres têm de ser consideradas leigas e por isso não lhes pode ser negado os diretos laicais que são dados aos homens” refere sublinhando que esta alteração vem dar “outra dignidade” às mulheres.

“A dignidade da mulher não está em se parecer com o homem e fazer as coisas de igual modo; está em ter os mesmos direitos para fazer as coisas de forma diferente” frisa.

“Jesus foi um revolucionário e tendo em conta a sua época deu um grande contributo para a valorização das mulheres, rodeando-se de muitas discípulas: Maria Madalena, Susana, Joana, entre outras. Ele introduz a dignidade da mulher no matrimónio; através da misericórdia perdoa à mulher adúltera… É extraordinária a relação de Jesus com as mulheres” destaca.

“Ele não escolheu nenhuma para apóstola mas temos de ver isso no contexto da época e não como uma opção deliberada. Jesus era um nómada, era impossível juntar homens e mulheres naquele estilo de vida” salienta, ainda, ao dizer que este gesto do Papa é “especialmente” simbólico.

Questionado sobre se estaremos a entrar na discussão sobre a possibilidade de ordenação das mulheres, o padre José Júlio Rocha responde que uma e outra questão não se confundem, mas não esconde que há de chegar o momento histórico para que a questão da ordenação seja vista e debatida com “muita abertura”.

“Há várias correntes dentro da Igreja a defender a ordenação e o seu contrário. Julgo que a questão um dia se porá,  a começar pelo primeiro grau da ordem que é o  do diaconado” pois a “não ordenação mais do que uma questão de fé é uma questão histórica” refere ao explicar como a questão se colocou por São João Paulo II e agora por Francisco.

A entrevista , na íntegra , vai para o ar este domingo, dia 24, ao meio-dia no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores.