Pelo Pe. Paulo Borges, diretor da Comissão Diocesana da Pastoral da Saúde.

A primeira obrigação ética é procurar oferecer a todos os seres humanos uma boa vida. E a segunda é conseguir que tenham uma boa morte”. Diego Gracia

Antes de mais nada, julgo ser de toda a pertinência afirmar que não há dignidade nenhuma em matar, por mais eufemismos que adotem para tentar legalizar esse ato. No entanto, é necessário esclarecer que toda esta questão à volta da eutanásia é um assunto de alta intensidade, mas baixa frequência.

A argumentação dos “prós e contras” sobre a eutanásia é bastante sensível, porque reclama direitos e liberdades que, a meu ver, não podem ser olhados unilateralmente, sob pena de nos entrincheirarmos num dos lados da barricada, como de uma guerra se tratasse. Penso ser imperioso esclarecer e informar as pessoas, sem esquecer, claro está, o nosso património antropológico, cultural e espiritual, nas suas mais elevadas referências éticas sobre o valor inapelável da vida em todas as suas dimensões.

Posto isso, gostaria de focar a minha reflexão sobre o sentido redentor do sofrimento. O sofrimento em si não é redentor, mas aquilo que ele gera ou pode gerar é que se torna redentor.

Quando falo do aspeto redentor do sofrimento não quero conotá-lo com o valor cármico da existência, equiparável à contabilidade entre deve e haver, que terá com certeza o seu sentido e valor; mas ao santuário interior onde a pessoa encontra-se consigo mesma e experiencia, como num rasgo de luz (espécie de relâmpago) a verdade de si mesmo. Ou seja, o sofrimento transporta consigo uma dimensão de tarefa, amadurecimento e crescimento onde pode acontecer a catarse possibilitando o agigantar da alma como trabalho interior, a que podemos chamar resiliência. Neste lugar sagrado, a pessoa pode ler toda a sua história de forma narrativa, como um tecido e não uma manta de retalhos. Presenteia-se com a luz da sua essência e aceita com humildade o esplendor da sua verdade.

Com isso, não quero de modo nenhum fazer a apologia do sofrimento pelo sofrimento, como resignação complacente, mas apenas reconhecê-lo que ele é inerente à vida, a toda a vida. Apresenta-se-nos como um aguilhão na carne e, simultaneamente, como tarefa e desafio a ser superado e transcendido.

É uma constatação básica e humana concluir que o sofrimento, e particularmente o sofrimento do outro, inquieta e incomoda-nos porque confronta-nos com os umbrais da nossa própria fragilidade, onde muitas vezes o sentimento de impotência toma conta de nós, tolhendo-nos a inteligência e a criatividade diminuindo assim, a nossa capacidade para debelar essas refinadas dobras da morte. Pensemos bem se sofremos e fazemos sofrer para nascer, também sofremos e faremos sofrer para morrer. A morte e a vida auto iluminam-se, pois são o principio e o fim do arco da existência.

Estou em crer que a nossa mentalidade e cultura do sucesso e da competitividade, está pouco habilitada para lidar com as questões da vulnerabilidade e da finitude que fazem parte daquilo que podemos chamar de genuinamente humano. Sabemos que a morte faz parte da vida e que sem ela o ser humano não fica completo. Ademais, por mais paradoxal que possa parecer a morte é também para viver.

Quando alguém chega ao ponto de verbalizar que “quer morrer, habitualmente esse “grito de desamparo” cristaliza muito bem a recusa do que está a viver e sentir naquele particular momento de desconforto, por não lhe encontrar o seu sentido imediato ou até muitas vezes porque sente-se um peso para os outros. E, por ventura, esses outros são os mais próximos e queridos.

A resposta mais acertada poderá ir no sentido de contrariar que a “cultura do descartável” ganhe aí força ou seja a única proposta que os cuidadores tenham para lhe oferecer.

Aliás, a Medicina paliativa tem muito para oferecer ao nível do controlo dos sintomas para que a pessoa se sinta minimamente confortável e sem dores, comunicação adequada com o doente que sofre, apoio à família na identificação de necessidades e na elaboração dos lutos e, finalmente, toda a equipa interdisciplinar trabalha as melhores estratégias para a promoção da sua dignidade.

É fundamental saber que os cuidados espirituais e ou religiosos fazem parte integrante dessa equipa interdisciplinar.

Os cuidados espirituais não poderão ser “tipo bombeiro”, mas de “companheiro”, que marca uma presença afetiva e efetiva, acompanhando o desencadear do processo na pessoa doente que o deseja e solicite diretamente, ou por intermédio dos seus familiares, que deverão assumir integralmente o papel de participantes nessa equipa de profissionais de saúde.

A comunicação deverá ser adequada e responsável: devolvendo, tanto quanto possível, ao enfermo a sua autonomia para tomar decisões, para dar a conhecer os seus valores, as suas verdadeiras preocupações, os seus assuntos para resolver: realizar as necessárias despedidas, desfazer as mentiras, resolver as questões difíceis, estabelecer confiança, segurança, compreensão e favorecer o acompanhamento humano e espiritual.

Nos cuidados espirituais a pessoa doente é sempre quem sugere o que necessita: por vezes, é preciso algum tempo e quem a ajude a descodificar ou purificar a linguagem religiosa que deseja expressar através das suas inquietações, ansiedades, sentimentos de tristeza, mágoas, angústias, feridas no interior do coração, perdas, remorsos, luzes e sombras, gritos de dor e abismos de medos…

O acompanhamento espiritual também poderá passará por ajudar a pessoa a procurar o sentido da vida, (da sua vida!) naquele preciso momento de desalento, de perda da saúde, de desespero… reconciliando-se consigo e com o seu passado, integrando a sua história, narrando ou relendo a sua vida à luz daquilo que sempre valorizou, ou que o fez sentir importante, querido e útil…

Podemos ser levados a pensar que tudo isto (e muito mais) acontece com feitos grandiosos ou espetaculares da pessoa, mas não; a maior parte das vezes, a pessoa doente encontra sentido para a sua existência nas coisas mais simples: uma flor, um sorriso desinteressado, a entrega de vida gratuita, a presença amiga, a escuta empática, uma mão estendida, o perdão incondicional, uma viagem que realizou, uma fotografia, a força de um olhar cheio de compaixão, a pessoa que amou… poderão fazer com que ela percorra o caminho que chamaria a “Via Sacra da Fé”, que no fundo não são mais que as etapas do processo psicológico que a pessoa doente é confrontada e desafiada a fazer: negação; revolta; negociação; depressão; e reconciliação.

A boa prática ética recomenda que não se caia na tentação da futilidade terapêutica a todo o custo, mas que se ofereçam cuidados de conforto adequados e proporcionados a cada pessoa. O sofrimento (próprio ou alheio) é um desafio se aprende na vida e com a vida. Viver é aprender a morrer e vice-versa. Esta é uma escola de sabedoria, de amadurecimento e de humildade. Em todo este processo, julgo ser pertinente resgatar o espetro luminoso do sentido redentor que o sofrimento pode ter dentro do contexto vital daquela existência que agora termina. É de capital importância aceitar que a vida não é para ser consumida, mas consumada. Por isso, é sábio aquele que assume o percurso de uma vida até ao fim, onde mesmo a morte é para ser vivida na sua plenitude.

 

 

Post scriptum: a palavra “Atanásio”, na sua origem etimológica, significa “aquele que não morre