Por Carmo Rodeia

Se alguém poderia supor que 1984 era apenas um grande romance de um grande escritor- George Orwell-, e que por isso, a história que relata a subversão da sociedade tomada pelo poder tirânico, ficaria nas páginas do livro, ao olhar para a realidade atual que nos entra casa adentro todos os dias, com as notícias da guerra na Ucrânia, encontrará paralelos impensáveis. Mas apenas para os mais distraídos.

Os traços e as consequências da distopia, tão bem caracterizada no livro, estão à vista de todos. Aliás, diria que já era do conhecimento de todos pois julgo que, em bom rigor, ninguém tem dúvidas das disrupções levantadas pelos sistemas totalitários como também ninguém terá dúvidas de que a Rússia, de Putin, se encaixa nesse sistema. Hoje, como no passado.

Embora a guerra ainda envolva militar e aparentemente apenas a Rússia agressora e a Ucrânia agredida, na realidade aquilo que está a acontecer com mortos, refugiados, desalojados ou encarcerados é um principio devastador da humanidade que,  não sendo novo,  não pode deixar-nos indiferentes: o perigo da audestruição da humanidade. Sim, não estou a ser alarmista; apenas me situo nesta grande mortandade a que estamos a assistir pois não se morre só quando se perde a vida, morre-se de medo, morre-se de fome, morre-se de tristeza e de desesperança.

Uma criança, como aquelas cujos rostos têm aparecido despudoradamente nos écrans das televisões, como aquela que até integra um vídeo que Vlodomir Zelenski apresentou no final da alocução que fez ao Congresso norte americano- o menino sozinho com um saco de plástico na mão, olhar marejado de lágrimas, entre soluços de desespero, atravessava a fronteira sabe-se lá para onde, com a família atrás carregada de malas e entregue ao cuidado de memórias que ficaram para trás- jamais poderá esquecer ou ultrapassar sem dor o trauma da fuga, da guerra, dos tiros, das sirenes. Há-de ser algo que o acompanhará toda a vida; pode até integrar mas na memória ficará sempre registado como um trauma.

E não são apenas as crianças da Ucrânia; serão todas as crianças e adultos, novos e velhos, que fogem da guerra, da perseguição e do genocídio. Meço as palavras: genocídio. Quando se bombardeiam hospitais, asilos, bairros residenciais não há outro nome. Que interesse podem ter estes alvos do ponto de vista militar? Na Ucrânia, e noutras partes do mundo que, infelizmente, deixaram de ser história e portanto foram destronadas no prime time televisivo. Este é também o preço das sociedades meditáticas: o que não aparece não existe, ou fingimos que não existe.

É o perigo da guerra, destas guerras que vão perdendo relevância mas que não terminam. Já ninguém fala da Síria; lembrar-nos-emos vagamente do Afeganistão, onde milhares de pessoas todos os dias, crianças, e sobretudo meninas, serão alvo das maiores barbaridades sobre as quais ninguém fala, ou de Cabo Delgado, em Moçambique… E poderia continuar a desfiar um rosário de conflitos regionais, a que o papa chamou em tempo, 3ª Guerra Mundial em Episódios.

“Basta!”, gritava ontem o Papa na oração do Angelus em Roma, renovando o apelo a que se parem e calem as armas e se negocie seriamente em ordem à Paz.

Um mês depois do início de uma guerra no coração da Europa, cujo desfecho nem mesmo nas páginas dos livros descortinamos ou nos atrevemos a intuir, a única coisa que podemos afirmar é que nada disto faz sentido. Esta guerra é uma derrota para todos nós, como todas as guerras o são.

O Papa defendeu que é preciso “repudiar a guerra, lugar de morte, onde pais e mães sepultam os filhos, onde homens matam os seus irmãos, sem os ter sequer visto, onde os poderosos decidem e os pobres morrem”, não devastando apenas o presente mas também o futuro. Por isso as crianças são tão importantes. As ucranianas, as russas, as sírias, as afegãs, embora estejam mais longe do nosso olhar e portanto, às vezes, do nosso generoso coroação quando se empolga em atos de caridade.

“Chegou o momento de abolir a guerra, de eliminá-la da história do homem, antes que seja esta a eliminar o homem da história”, declarou o pontífice.

Não tenho dúvidas de que, a cada dia de guerra, a situação de todos piora. Se não por causa dos tiros e da destruição há de ser por causa dos estilhaços que a guerra vai fazendo.

Nos balanços relativos à guerra na Ucrânia os números são expressivos: 1081 mortos, incluindo 93 crianças, e 1707 feridos, entre os quais 120 menores, segundo dados da ONU. A guerra provocou a fuga de mais 10 milhões de pessoas, das quais 3,7 milhões de refugiadas. E na Síria? E no Afeganistão? Já ninguém se lembra, porque é longe…

Eu recordo: 3.746 mortos em 2021, uma “queda significativa em relação ao ano anterior e o número mais baixo desde o início do conflito, em 2011” divulgava o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Entre as vítimas mortais registadas constam 1.505 civis, incluindo 306 crianças. Estima-se que 450 mil pessoas já possam ter morrido nestes quase 11 anos de guerra, 6,7 milhões de refugiados.

Basta mesmo, diria eu ao Santo Padre se ele me ouvisse. Basta na Ucrânia, na Síria, no Afeganistão e basta connosco também. Que bom que era que a nossa solidariedade se estendesse a todos.

Na sexta-feira passada, consagrámos por decisão do Papa a Ucrânia e a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Foi bonito. O Papa estendeu esta consagração a toda a humanidade, incluindo nós. Mais bonito ainda.

Estamos na Quaresma. No tempo favorável à conversão e à oração. Rezemos pela paz e pela conversão dos corações. Do nosso e os dos outros. Afinal, o coração bate da mesma maneira da Ucrânia, na Rússia… ou na Síria.