A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) divulgou hoje uma reflexão sobre os “Desafios Pastorais da Pandemia ” e fala num “escândalo” que é a solidão e abandono dos idosos, particularmente afetados pela Covid-19.

“O modelo e o funcionamento dos lares devem ser profundamente repensados, tanto no que se refere ao equilíbrio do seu financiamento e gestão pelo Estado e por entidades da sociedade civil, como no respeitante à diferenciação dos serviços aí prestados e à articulação com as famílias”, refere o texto.

“A questão dos idosos e a ideia de que são descartáveis é um escândalo que se revelou em toda a sua brutalidade. Devemos isolar de nós o vírus e não o idoso, tornando-o desumanamente solitário”, acrescentam os responsáveis católicos.

O documento evoca as experiências dos últimos meses, em que muitas pessoas acabaram por “morrer na solidão”.

“Quantos, nos hospitais, nos lares e nas famílias viviam e morriam já na solidão?”, questiona a CEP.

“É exigível criar e manter as condições para uma vida digna, sem discriminações, minimizando o sofrimento decorrente de uma doença e tratando os doentes com todos os meios humanos, técnicos e científicos disponíveis para um cuidado com qualidade”, refere o texto.

A reflexão “Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal”, com 53 pontos, foi aprovada a 13 de novembro de 2020 na Assembleia Plenária da CEP, que decorreu em regime misto, online e presencial, a partir de Fátima.

O texto divulgado no primeiro dia de 2021 vem no seguimento do documento “Recomeçar e Reconstruir – Reflexão da CEP sobre a sociedade portuguesa a reconstruir depois da pandemia Covid-19”, aprovado a 16 de junho do último ano.

Os bispos começam por dirigir-se a quantos foram diretamente atingidos pela pandemia e sofrem “nas suas casas e famílias, nos lares e nos hospitais, na Igreja e suas instituições”, os que choram a morte de entes queridos e os que “perderam ou viram substancialmente reduzidos os seus rendimentos necessários a uma vida condigna”.

“Com a pandemia arriscamo-nos a deixar para trás faixas da população que já eram frágeis e que viram agravar a sua situação”, advertem.

A CEP sustenta que a crise da Covid-19 esta ligada a “tantas outras”, a começar pela crise ambiental.

“A destruição acelerada de espécies animais e vegetais, a poluição e tantos outros pecados graves contra a natureza ameaçam a própria sobrevivência da humanidade”, advertem os bispos portugueses, que ligam a proteção ambiental à “proteção do ser humano, em especial os mais pobres, os vulneráveis e os refugiados do clima”.

“Cuidar da vida desde a sua conceção até à morte natural é uma exigência da sociedade que decorre do bem comum”, assinala o texto.

A prioridade da vida, indica a CEP, deve sobrepor-se ao “conceito de lucro na saúde”.

“Em muitos lugares, o doente, o mais velho e o deficiente sofreram de forma mais grave, muitas vezes com poucos ou quase nenhum cuidado de saúde”, lamentam os responsáveis católicos.

A reflexão propõe uma “reviravolta cultural”, após o impacto da pandemia, para voltar a ter “relações fraternas e generosas”, que promovam “a inclusão e a solidariedade”.

O texto alerta que “a fome que duplicou no mundo desde o início da pandemia, o gritante abismo entre os multimilionários cada vez mais ricos e a grande franja da humanidade cada vez mais pobre, a xenofobia, o racismo, as guerras fratricidas, a ameaça da crise climática”.

“Este tempo faz-nos olhar com preocupação para o fosso escandaloso entre os ricos e os pobres, entre os privilegiados e os não-privilegiados”, acrescenta a reflexão.

A CEP considera que o preconceito racial “continua a existir” e que “pessoas das periferias, sobretudo migrantes, refugiados e prisioneiros, têm sido os mais afetados por esta pandemia”.

“A experiência da fragilidade que a pandemia nos faz viver mostra quanto é absurda a tentação de autossuficiência ditada pela técnica e pela ciência, quanto é artificial o mundo do bem-estar que estamos a criar”.

Os bispos portugueses analisam o impacto do confinamento e propõem-se a “reunir pessoas atingidas pela experiência do sofrimento, que caminhem lado a lado e rezem na companhia de quem sofre”.

(Com Ecclsia)