Pelo Pe Abel Vieira *

É verdade que a perda da memória do nosso passado não nos garante bom futuro. Com esta convicção, como herdeiro desse passado, deixaria a «vozes» mais credenciadas a dimensão histórica desta Igreja dos Açores, bem como o futuro imprevisível aos mais novos que dele são já portadores.

Prefiro agitar algumas «campainhas de alarme» nos 481 anos da nossa Diocese, elencando desafios que, entre outros, se nos colocam num presente movediço, ainda interpelado pelo cinquentenário (inconsequente?) do Concílio Vaticano II.

Sem deixar de reconhecer aspetos positivos, interessa-me mais o caminho por fazer, desde logo a falta de uma consciência alargada de sermos POVO DE DEUS, na boa memória da «Lumen Gentium», todos DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS, uma Igreja mais presente e atuante no MUNDO, em atitude humilde de serviço, lembrada da «Gaudium et Spes». Que MUNDO é este nos Açores em 2015?

Na «crista da onda» de uma forte DEGRADAÇAO SOCIAL, num contexto de globalização, precisamos estar muito mais atentos tanto à erosão de valores humanos e familiares como às novas gerações, jovens com outras mundividências, pontual e superficialmente ligados à sua Igreja. Eles são um bom «termómetro» do futuro que bate à nossa porta.

As FAMÍLIAS estão sempre no «epicentro» de todas as crises, nas «pontes» possíveis do passado para o futuro. Sofremos um envelhecimento generalizado, etário mas sobretudo psicológico e espiritual a todos os níveis. Não podemos fazer «vista grossa» a profundas feridas sociais, consequentes da violação de direitos humanos que é grave calar, misérias do nosso desencanto sem resposta na distribuição assistencialista de «sacos plásticos», sem recuperação visível de «bancos de trabalho». Importa cuidar da fragilidade, na feliz expressão do Papa Francisco.

Até porque profundamente alterada a nossa CULTURA, deve merecer-nos a melhor atenção na procura de um conhecimento dialogante e respeitador, aberto a todas as suas vertentes para aprender e comunicar com simplicidade a alegria do Evangelho. Boa parte da nossa cultura merece o adjetivo «popular» e por ela passa a «alma açoriana». Que aberturas e resistências se manifestam no pluralismo cultural em presença? Como escutar, viver e dizer o Evangelho na fidelidade ao nosso mosaico cultural?

Temos uma massa inconsciente, amorfa e descomprometida de «batizados em pequeninos» mas não temos um LAICADO maduro e militante pela forma de ser, estar e agir no mundo como Igreja. Os chamados «movimentos eclesiais» são hoje espiritualistas, residuais e irrelevantes na sociedade açoriana. Contribuem para uma imagem redutora da nossa Igreja, como que perdida nesta reconhecida «mudança de época». EVANGELIZAR é urgente, valorizando laços e procurando novos caminhos de proximidade.

O contato com uma faixa alargada de jovens e adultos, distantes da sua Igreja porque desconhecedores do fundamental cristão, alerta-me para a urgência de formas muito simples para proporcionar a TODOS as referências básicas que permitam a cada um situar-se e fazer caminho. Quantas vezes, «oferecemos gravatas a quem ainda não tem camisa», como dizia um antigo colega que Deus haja. Há que «descomplicar» planos e propostas pastorais acessíveis a todos. Há espaço para a criatividade e a inovação.

O essencial da REFORMA LITÚRGICA ficou por fazer. Exige-nos ainda a recuperação do sentido do mistério, do entendimento dos sinais, do espírito comunitário de assembleias celebrantes, decididas a participar de forma «consciente piedosa e ativa», de acordo com o que nos propõe a «Sacrosantum Concilium».

Precisamos repensar os lugares da PALAVRA, para além da celebração litúrgica, quando nos resta uma catequese de crianças e adolescentes, quantas vezes reduzida a «barulho para despachar sacramentos», servida por catequistas com deficiente formação. Faltam-nos tempos e espaços para partilhar a vida e olhares plurais para os acontecimentos, ABRIR A BÍBLIA, para questionar e reencontrar sentidos, em clima distendido de liberdade, para crentes e não crentes. Como queremos uma SAÍDA MISSIONÁRIA para EVANGELIZAR se continuamos de costas voltadas para a Sagrada Escritura, carregando quatro séculos de «Contra-Reforma Tridentina» e contentando-nos com a manutenção de «veneráveis tradições» a título de religiosidade popular?

Sinto todos os dias que o SISTEMA PAROQUIAL que temos, excessivamente administrativo, burocrático e sem alma nem dinamismo missionário; se torna pesado, desgastante e triturador para quem o serve, desinteressante para quem o procura pontualmente e com vontade de não mais voltar…Este modelo está completamente errado, desfasado da letra e espírito do nº 28 de Evangelii Gaudium e precisa ser profundamente alterado. Parece-me que ninguém o quer fazer. É muito mais fácil manter a mesma «máquina…» sem mexer com estruturas desfasadas da nossa realidade social.

Sinto também que é necessário RECUPERAR O PRESBITÉRIO para o MINISTÉRIO, para uma comunhão sem «castas» e para a missão pastoral em registo missionário, tarefa prioritária que muito pesará naturalmente ao nosso novo Bispo nos próximos tempos de transição, um tempo exigente para todos.

Será esta a hora de convocar um SÍNODO DIOCESANO que nos liberte do clericalismo, de volta e em força?

* O Pe Abel Vieira é pároco da Matriz da Praia da Vitória, na ilha Terceira